funeral.
de yuri costa.

- Eu quero vê-lo - disse a velha, aproveitando-se do atraso da missa e do padre, já se apoiando no banco à sua frente e fazendo força para se levantar.
Seguiram-se inúmeros protestos, mas a velha foi irredutível. Ignorava que já não tinha coração de moça; o peito já não aguentava sofrimento nem alegria além da conta. Similarmente, o pulmão lhe falhava nos momentos errados, roubando seu ar e obrigando-a a esquecer a vida por uns instantes intermináveis para repor as energias que outrora lhe vinham com tanta facilidade. Também era forte para todos a lembrança do derrame que tivera no ano anterior - o primeiro, mas não seriam inocentes de pensar que era o último -; não deixara grandes sequelas, mas cruelmente atingira suas pernas, o que, somado à fraqueza dos ossos, transformaram o ato de andar num esforço hercúleo.
Era um quadro estarrecedor para qualquer passante, e mais assustador ainda para os mais próximos, que, silenciosamente, não pela primeira vez, previam e temiam (e também não deixavam de desejar) o inevitável e inadiável para findar as dores. Mas ninguém jamais diria que ela era um estorvo, não. Talvez uma ou outra esposa distante, que não aguentava a visão dum velho, mas os outros, todos muito solidários, de bem, não teriam a coragem de constrangê-la. Não era, entretanto, uma angústia compartilhada. Se a velha sentia medo, não se sabia. Era inexplicável a forma como se movia na vida. Uma invisível que fazia questão de ser invisível para não se tornar um quadro, o centro das atenções, uma desagradável. Por isso mesmo dispensou todas as mãos e todos os clamores, levantando-se sozinha e trêmula, não pela sua decisão, mas pelas dores em seus músculos e em sua carne. Às vezes o sangue parecia pedra em suas veias. Pôs-se de pé, e tomou um segundo para respirar fundo, de olhos fechados - um sinal para os outros, mera rotina para si mesma. Cambaleou a curtos e vagarosos passos para fora dos longos bancos de madeira, apoiando-se e equilibrando-se muito mal, muito perigosamente para alguém de sua idade. Poderia cair e terminar de se quebrar.
Ignorava todos os aspectos fúnebres e decadentes de sua caminhada. Dispensou mais uma vez a ajuda, desta vez para percorrer os dez metros até o altar. Seria a primeira vez em um bom tempo que andaria sozinha, apenas ela e sua bengala, à exceção dos momentos em sua casa, sozinha. Nunca dispensara acompanhantes, nem qualquer tipo de ajuda. Parecia agradar mais ao benfeitor do que a ela própria. Mas aquele instante era diferente; não exatamente pessoal, ou ao menos não mais pessoal do que para aquelas quarenta ou cinquenta pessoas ali presentes, mas era algo seu consigo mesmo, um momento reservado para a imprudência, até mesmo negligente. Andou de olhos baixos, sempre atenta ao chão em que pisava, liso, mas não seria a primeira vez se lhe reservasse alguma surpresa. Levantava o olhar apenas para avaliar o caminho, e, nisto, inevitavelmente encontrava os olhos de quem observava com curiosidade, compaixão e até horror. Não era algo que qualquer pessoa gostaria de ver. Se pudessem tapar os olhos, o teriam feito, mas o espetáculo tinha maior clamor. De certa forma, era uma lembrança - mais lembrança que as próprias roupas negras ou os olhares tristes -, um retrato vivo do que cada um se tornaria.
Chegou aos degraus, último obstáculo que a separava do pequeno caixão. Percebera este fato, o quão pequeno era, no momento em que levantava suas pernas com dificuldade, uma de cada vez, numa demorada e dolorosa escalada. Era tão errado. Tão errado que aquela ordem, completamente contrária à natureza, vigorasse sobre o prédio, sobre o dia e sobre as famílias reunidas para se despedir. Dizer adeus parecia errado. Era um caixão, de fato, pequeno demais. E o morto parecia ainda menor, agora, de perto. Haviam feito um trabalho muito bom para fazer passar a morte como um simples adormecimento, mas a rigidez não mentia para quem o conhecesse, de fato. Nunca aquela criança inquieta estaria tão pacífica consigo mesma. Mais errado ainda. Era como olhar na face do fim do mundo, e senti-lo olhar de volta.
Houve expectativa nos momentos seguintes. Esperavam-se gritos, protestos ou O PIOR. A velha parecia frágil como nunca, como nunca antes. Tremia, porcamente equilibrada. A igreja inteira parecia pronta para socorrê-la; a urgência de seu estado e da possível situação surpreendentemente lhes fizeram esquecer do porquê de estarem ali, do que saudavam. A velha, entretanto, não derramou nenhuma lágrima sequer. Respirou fundo, como o tempo lhe ensinara a fazer, e encarou os olhos fechados da criança. Assim permaneceu por um longo período. Pressionou seus lábios murchos, úmidos e quentes contra a testa lisa e fria do morto, e então separou-se, e, pelos momentos seguintes, nada mais fez além de olhar para cima. Não era possível saber o que pensava. Virou-se e fez todo o caminho de volta, em silêncio. Ignorava agora também toda a estranheza de seu ato, e não se divertia com a maneira como os convidados desviavam o olhar, subitamente envergonhados de terem acompanhado a coisa toda. Apenas seguiu caminho, e desta vez aceitou ajuda para se sentar.
Não se sabe o que fizera nos dias seguintes. Não compareceu à casa dos pais após o fim da cerimônia; aceitou uma carona para casa, onde estaria confortável consigo mesma e saberia se virar sozinha, mesmo sem a ajuda da cuidadora, que estava de férias. Sabe-se apenas que, no dia seguinte, apareceu cedinho na padaria, como sempre fazia, com seus olhos negros baixos e marcados pela idade, e mais uma vez voltou para casa sozinha, onde permaneceu até o dia seguinte, quando o ciclo se repetiria. Ela sempre voltava para casa sozinha.