“Coisas”
Música: Damien Rice – 9 Crimes
Dedicado a: “Kuma Awasaki”

“Muitas ‘coisas’ são procuradas, muitas ‘coisas’ são desejadas, muitas ‘coisas’ são criadas... mas poucas ‘coisas’ que precisamos são alcançadas... sempre é assim....”

Naquela tarde nublada de vento fresco e forte, numa rua de terra de uma cidade não muito grande, era possível ver um filhote de urso caminhar entre os outros poucos animais que andavam tranquilamente para os seus compromissos. Ele andava um pouco mais devagar e no sentido contrário da maioria, então muitos abriam passagem para ele e alguns outros. Ele estava com uma blusa cor de vinho e de touca caída atrás, era possível ver longas orelhas caírem mais para trás da touca. 

Logo o vi entrando em uma rua menos movimentada. Caminhou um pouco, quase até o meio, passando pelas casas mais simples - quase todas tinham escadas para chegar a porta. Parou em frente a uma destas casas. Ele parecia triste. Eu ainda o via parado, da onde eu estava, no alto de um telhado de uma casa um pouco maior.

Saltei de um telhado para o outro para ficar atrás dele, mas ainda no alto percebi que ele estava olhando para uma casa com a porta fechada por madeira e fita para que ninguém entrasse, além de janelas também lacradas. Ele começou a subir a pequena escada e parou na frente da porta, tentando olhar pelas frechas deixadas. Eu via dentro e a casa estava vazia, mas com muitos moveis antigos, além de muitos objetos mágicos aparentemente comuns. Ouvi o barulho do garoto tentando abrir a porta com força e chorando, segurando na fechadura, sem sucesso. Meu coração bateu forte com cena.

- Preciso ajudar... – falei comigo mesmo e sumi dali.

O garoto continuava parado e com a cabeça encostada na porta, chorando. Até sentir uma mão humana e quente em seu ombro.

***

Eu estava dentro da casa e sentia a energia equilibrada do ambiente, principalmente de uma sala grande e bem decorada. Senti um objeto com uma energia mais forte me chamar. Estava coberto por um pano e deitado numa mesa de madeira redonda e pequena. Tirei a toalha sem tocar nela e virei o objeto de face para cima.

Um porta retrato.

Com a foto de um homem com uma certa idade já, e um garoto urso.

O garoto era bem jovem.

- Pai e filho... – comentei comigo mesmo, mas percebendo que não era sanguíneo. O senhor era muito branco e o corpo dele não tinha nada de parecido com o do garoto, moreno e de olhos brilhantes e castanhos.

***

- Você...? – disse o garoto para o espirito do homem que agora surgia à sua frente.

O espirito mexeu a cabeça confirmando.

- Sinto a sua falta... – disse ele com os olhos molhados e cheios d’agua.

Cheguei atrás da porta e olhei a cena por ali mesmo, segurando a foto em minhas mãos de lobo preto. Pude ver o homem acariciar a cabeça do filhote de urso que estava em pé tremendo um pouco, tentando acalma-lo, com sucesso.

Entregue para ele por favor” Me disse o homem, olhando para mim enquanto o garoto estava de olhos fechados sentindo o carinho de alguém que amava muito. Pude ver o homem dar um beijo no rosto do filhote e sorrir para ele, que tentava se despedir da melhor forma possível, sem sucesso. Assim que o homem sumiu ele se sentou nos degraus e começou a chorar novamente.

Suspirei. Fechei os olhos. Abri-os e eu estava na forma de um lobo animal com a foto em minha boca, sentado no chão de terra batida. Não demorou muito e o garoto me viu segurando a foto, os olhos tristes. “Um garoto tão bom sofrendo assim....” Pensei comigo e me levantei caminhando até ele e soltando a foto em seu colo.

Ele a olhou e ficou parado por alguns instantes. Pegou-a e a abraçou forte contra o peito e voltou a chorar de olhos fechados, agora mais aliviado. Quando ele abriu os olhos, eu não estava mais em sua frente. Ainda assim ele me percebeu no alto do telhado de uma casa e assim ficou me olhando, se levantou e saiu correndo por entre as ruas até eu não poder vê-lo mais.


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