Floresta Vermelha – Parte 2

- Ma... Mãe...! – a garota apontou para mim e tentou falar gaguejando de boca aberta, abraçada à mãe no canto da cabana. A pouca luz mostrava apenas que ambas estavam só com a roupa do corpo.

A menina estava com uma roupa um pouco mais pesada, cheia de peles e uma boina maior que a cabeça dela, essa que ficava caída para trás, e em seu pescoço estava enrolado um cachecol muito bem feito e trançado, alternando entre roxo e branco. A mulher estava perplexa e não iria conseguir falar uma palavra enquanto a filha tremia em seus braços.

- Senhora – falei para ela tentando passar um tom de voz que não assustasse.

A mulher engoliu em seco e a menina parou de tremer.

- Pelo visto me entende – voltei a falar .– Não vou machucar a senhora, e nem a sua filha – falei para ela, de pé na frente das duas.

- Ah… – falou a garota me olhando praticamente sem piscar.

- Eu... – começou a faltar as palavras devagar a mulher – Obrigado... senhor...? – tentou falar ela.

Lobo... Tire-as daqui de dentro... Eu lhe peço...” Ouvi em minha mente.

- Então... – tentei puxar assunto – Por que as moças estão aqui dentro...?

- Nós... estávamos fugindo da vila que moramos... – começou a falar a mulher, mais calma.

- Meu pai morreu... – falou a menina largando da roupa da mãe – Estávamos fugindo da vila para ir a outro vilarejo... Encontrar o meu irmão que estava lá casa de minha tia... – a garota se aproximou de mim, tocando o pelo negro de meu corpo que ficava exposto por usar apenas uma calça e uma jaqueta verde.

- Mãe! – exclamou a menina ao me tocar. - Ele é um Lobo mesmo! – falou ela com um sorriso no rosto.

- Faz anos que não se vê um lobo nessa floresta... Mesmo um que... – relutou por um instante mas falou mais tranquila – Ande sobre duas pernas. Ou patas – disse a mulher sem saber o que fazer.

- Entendo – falo para ambas com um sorriso discreto para não mostrar os dentes.

Em seguida a cabana tremeu levemente, sem que as mulheres percebessem.

- Desculpem-me... mas acho que as moças sabem do perigo lá fora... certo? – pergunto olhando para a mulher e fazendo uma leve caricia na menina que perdeu o sorriso.

- Sim... corremos para esta cabana por que não conseguimos sair mais cedo do vilarejo... – comentou a mulher em voz de tristeza – Foram eles que destruíram a nossa vila... E mataram o meu marido, junto com outros homens...

Segurei a alça da minha mochila no meu ombro por um instante enquanto penso, sendo chamado pela mulher.

- Senhor... Lobo – me chama a mulher.

Eu a olho, vendo um brilho de esperança em seus olhos.

- Sim? – respondo a ela.

Minha mãe sempre me disse que lobos são animais especiais da natureza, capazes de viverem sozinhos ou juntos, mas que cada um tem o seu tempo para ambas as coisas... – ela fez uma pausa e voltou a falar – Eu olhando para o senhor... lembro-me de minha falecida mãe... e confiei nela, sempre... – fez outra pausa - Por favor... cuide de minha filha! E a leve para o outro vilarejo em segurança! – exclamou ela para mim em pedido.

CONTINUA NA PARTE 3

Posted on 19:53 by Felipe Sena Pereira

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Capítulo 5


- Você tem certeza que vai sair com outro cara? – perguntei em um tom suave.

- Ainda não tenho nada que me prenda aqui para eu não querer sair. – respondeu Alexis mordendo meu lábio inferior.

- Então eu vou de dar um motivo. – falei, pegando-a pela cintura e a abraçando forte. Alexis envolveu suas pernas em mim e a levei para o nosso quarto.

Deitei por cima dela em nossa pequena cama e fui tirando tudo que ela havia colocado em seu corpo. Depois de uns minutos já nos víamos suados e em meios a suspiros longos e profundos. Alexis já estava toda descabelada, o que eu gostava e minhas costas, pareciam ter sido pista pra corrida de cachorros de tantos arranhões. Depois de um pouco mais de uma hora de puro amor, eu fiquei deitado apenas olhando para ela e ela fazendo o mesmo.

- Porque chegou tão tarde ontem? – perguntou Alexis.



- Se eu te contasse, não acreditaria em mim. – falei abaixando os olhos.

- E porque não tenta?

- Não posso, amor.

- Estava com outra? Percebi quando eu disse que eu iria sair, o seu ciúmes. Pensei que fosse fazer alguma loucura ou algo do tipo.

- Não, - falei franzindo a testa. – Eu não estava com outra amor. Só fui fazer umas coisas.

- Tipo... O quê? – perguntou Alexis se mostrando um pouco triste.

- Tipo... Coisas, amor.

- Você não me ama mais, então?

- Eu te amo, amor, e não precisa duvidar disso. – falei e acariciei seu rosto.

Continuamos quietos, apenas olhando um ao outro pelo silêncio daquela tardezinha pacata. Ela foi a primeira a fechar os olhos e consequentemente a primeira a dormir, mas eu não. Eu demorei um bom tempo para dormir. Isso não foi um problema porque ficar olhando aquele belo rostinho, bem próximo ao meu, era incrível. Era mágico, tudo perfeito. Ela era perfeita, mas eu não podia contar a ela o verdadeiro motivo de eu ter chegado tarde em casa. Ela acreditaria em mim, pelo menos eu acho que sim, mas eu poderia deixá-la com medo e poderia ser ruim para ela. Quero dizer, com certeza seria ruim, quem gostaria de viver com medo? Mais o pior de tudo, ela poderia querer me deixar, só pra não correr mais perigo.

Porque estou me atormentando com isso? Não houve nada, pensei.

Comecei a lembrar daquele cara me espionando em frente a floricultura. Melhor dizendo, me encarando, porque aquilo não era espionagem, ele parecia realmente querer me mostrar que eu estava sendo vigiado. Parecia querer me intimidar ou sei lá, me dar algum aviso. Só que aquela perseguição... Eu não me importei em saber se ele morreu ou não, mas eu estou começando a ficar mole demais com os sentimentos. Estou deixando eles me dominarem. Eles não querem sair de mim, ou pior, eles estão aumentando cada vez mais. Eu aprendi a não ter fraqueza, eu aprendi a não ter medo, raiva, alegria, esperança, fé, coragem, eu só era um robô humano nas mãos de uns miseráveis que me enviavam para assassinar pessoas que nem sempre era ruins, e sim...

Inocentes, pensei enquanto limpava o meu suor. Eu estava todo suado, meu coração estava totalmente acelerado e eu não sabia o que era aquilo ou aquele... Aquele sentimento que estava me dominando, aquele sentimento que estava me deixando com o peito dolorido de tanto receber fortes batidas.

Me levantei e fui ao banheiro lavar o rosto. Olhei no espelho a face de um homem desesperado e sem saber o que fazer.

- Você tem algo a perder. – falei me encarando no espelho.

Eu tenho algo a perder. Finalmente agora eu tenho uma vida boa, tenho um lar, um lugar para todo dia eu voltar, tenho um colo todas as noites para deitar, tenho uma boca todos os dias para beijar, tenho uma amiga que em tudo eu posso confiar, tenho um amor que me faz querer cada dia mais ser melhor, tenho uma namorada que é a mulher com quem eu quero me casar.

- Vá salvá-la. – disse o meu reflexo... Ou eu. Agora eu estava ficando um pouco assustado. Eu posso garantir que não abri a boca, mas o meu reflexo disse algo. Disse para eu ir...



PLAT!

Arregalei os olhos ao ouvir um barulho estranho passando pela sala. Abri a gaveta do armário que tem no banheiro, procurei por alguma coisa com que eu pudesse nos defender, mas eu não encontrava nada. Pente, escova de dente, creme dental, papel higiênico... Não tem nada...

- Vai ser com você mesmo. – falei olhando a toalha da Alexis que ela havia deixado no boxe.

Peguei a toalha e a enrolei dando várias voltas nela própria e segurei cada ponta com uma das mãos. Aquilo seria a única maneira de uma suposta defesa. Eu simplesmente poderia enforcar quem quer que esteja invadindo a nossa casa.

Abri lentamente a porta do banheiro deixando uma brecha para que eu pudesse olhar. Não vi ninguém ali então continuei abrindo devagar a porta. Quando eu a abri quase que por completo eu recebi um chute no meio do peito que me fez cair no chão quase que imediatamente.

- Vá pegar ela enquanto eu pego esse aqui. – disse o cara com uma máscara cobrindo o seu rosto.

O outro passou logo atrás dele, também com o rosto coberto por uma máscara e indo em direção ao meu quarto. Indo em direção a Alexis.

- ALEXIS, CORRE! – berrei enquanto eu me levantava e atacava o miserável.

Não ouvi ela me responder ou se quer algum sinal de que ela havia acordado, mas aquele cara não me deixou perder o foco nele, nem por um segundo.

- Está achando que vai conseguir me bater? – perguntou o homem mascarado me socando no rosto. Eu caí e me levantei novamente tentando um golpe de sorte. Atirei minha mão direita com toda a força no rosto dele, mas ele conseguiu esquivar. Eu nunca me senti tão lerdo na minha vida. Eu estava fora de forma e muito fraco. Levei um soco na barriga que me fez cuspir sangue, mas o pior não foi isso.

- NICHOLAAAAAS! – berrou Alexis do quarto. – AAAAAAAAAAH!

- AMOR, NÃO! – berrei enquanto eu me levantava e empurra o homem contra a parede. Finalmente eu parecia ter ganho uma. Consegui chegar até o corredor e pude ver o outro homem puxando a Alexis pelos cabelos. Ela estendia as mãos para mim e eu estiquei as minhas mãos para ela.

- Nick... – disse Alexis em prantos e desistindo de se soltar das mãos daquele desgraçado.

Eu recebi um soco no rosto, e só pude ouvir um berro da Alexis dizendo não. Quase perdi os sentidos por completo e desmaiei. Acho que faltou pouco para isso, mas eu me encontrava no chão com um rasgo um pouco acima do meu olho direito, com que me fazia enxergar ainda menos.

- Não tenha medo, amor - sussurrei para a Alexis com dificuldade.

Recebi um chute na barriga e pude sentir minha boca colocando sangue pra fora. Me senti sendo levantado, e então um soco na minha boca, e o chão voltou a ser meu companheiro de dor. Senti minha cabeça sendo pressionada contra o chão e ao perceber, era o homem com máscara pisando na minha cabeça.

Tentei me levantar e dessa vez eu não fui impedido, mas também não tinha forças para lutar. Olhei para o homem que estava segurando a Alexis. Olhei para a Alexis, que estava de joelhos soluçando de tanto chorar e tapando os seios, pois fora arrancada da cama sem mais nem menos. Só estava vestida na parte de baixo, e isso me fulminou com mais ódio ainda.

- Você vai morrer por ter visto ela nua. – falei enquanto eu tentava não rir.

- Eu também a vi nua. – falou o homem que estava a minha frente.

- Então você também vai morrer. – falei em um tom tão sério que ele tentou me socar imediatamente tentando me atordoar novamente, só que desta vez eu consegui desviar e logo em seguida, dei uma cabeçada nele. Só que ambos sentimos dor, e logo depois ele me socou o estomago e segurou minha cabeça, batendo-a contra a parede, mas não me soltou.

Ele me olhou fixamente nos olhos e tirou a máscara do seu rosto. Era o mesmo cara que estava na floricultura me encarando... Mas aquilo era impossível. Ele deveria ter morrido ou pelo menos estar muito machucado e ele não aparenta ter nenhum arranhão.

- Você achou mesmo que iria ficar em paz e ter uma vida bonita e duradoura? Achou mesmo que nós íamos te deixar em paz? Achou? – disse e novamente me socou no rosto. – Seu monte de merda, você é um burro!

- Só de... Deixe ela em paz... Por... Por favor.

- Deixar quem em paz? Ela? HAHAHAHAHA.

Enquanto ele gargalhava a Alexis ficava ainda mais amedrontada. Olhei para ela e ela me olhou. Pude perceber o medo que ela sentia em seus olhos. Pude ver a dor que ela sentia em seu pavoroso medo saindo pelos seus lindos olhos. Suas lágrimas, suas incontáveis lágrimas me faziam querer desistir da vida para que eu não pudesse ver aquele sofrimento. Eu não queria e não podia vê-la sofrer.

- Olhe só para você Nicholas Forbes. – falou me soltando o homem que estava me perseguindo. – Está fraco. Fora de forma. Entregue aos seus sentimentos e olha só... Você tem uma fraqueza e é uma fraqueza bem bonita, vamos concordar. – disse olhando para Alexis e ele estava certo. Ela era a minha fraqueza.

- Deixe... Ela. – falei de novo.

- Nicholas, lembra quando começamos a fazer esses trabalhos... Como eu posso dizer... Eliminadores de alvos? É, gosto desse nome. Então, você lembra que antes de começarmos a eliminar os nossos alvos, nós fomos treinados para não sentirmos nada, porque não podíamos ter uma fraqueza. – disse puxando minha cabeça para trás para que eu pudesse olhar nos olhos dele. – Então como é que você vem me pedir para deixar ela ir? ELA É A SUA FRAQUEZA!

- Nick... – sussurrou Alexis esticando novamente as mãos para mim.

- Você sabia que o seu amor é um assassino de aluguel? Foi ele quem matou sua melhor amiga! – disse o meu perseguidor para a Alexis. – Ele aceitou ficar com você para tentar desfazer isso, mas ele sempre soube que isso era impossível e que mais cedo ou mais tarde, você estaria em perigo por causa dele.

A Alexis me olhou com os olhos arregalados. Parecia me perguntar o que ele queria dizer com aquilo tudo. E ele continuava a dizer todas as coisas que eu já havia feito e então eu pude ver uma certa decepção em seus olhos.

- É verdade isso Nick... Você matou... Você matou a Elisa? – perguntou a Alexis me olhando com os olhos ainda arregalados e incrédula com o que estava ouvindo.

- Amor...

- Matou ou não matou? – perguntou me olhando séria.

- Eu fui... Eu fui obrigado. – respondi tentando conter as lágrimas que estavam prestes a rolar.

- Como assim você a matou, Nicholas? Como você teve essa coragem? Como você pode ter ficado comigo mesmo sabendo que eles iriam vir atrás de você? O que você queria comigo? Me matar? Porque você ficou comigo? Porque entrou na minha vida Nicholas? Porque você me deixou te amar? Quem iria querer amar alguém como você? ME DIZ!?

Eu não sabia o que dizer e não tinha mais forças para conter minhas lágrimas.

- Me perdoa... Me perdoa...

- Eu não te perdoo! Eu nunca vou te perdoar! Eu te odeio Nicholas, eu te odeio!

- Você está vendo o que você fez, Nicholas Forbes? – perguntou o homem que me perseguia e provavelmente é um assassino mandado pelo Oscar. – Sabe o porquê eu estou aqui Nicholas?

- Porque? – perguntei em prantos.

- Porque você não pode ter uma fraqueza. – falou ele com um ar mistério.

- O que você vai... – tentei falar, mas ele me impediu tapando minha boca e fazendo sinal de silêncio com a mão.

- Alexis, você se tornou a fraqueza dele e ele não pode ter fraqueza. Você vai ter que morrer. – falou para Alexis. – Você me entende, não entende?

- Eu não quero morrer... – falou enquanto chorava.

- Mas vai ter minha querida. O culpado foi ele. Somente ele.

- Tudo bem, mas eu quero que ele veja. – falou Alexis.

O homem que a segurava a colocou de joelhos na minha frente, face a face comigo. Eu estava sentado no chão encostado na parede, sem forças para fazer mais nada e chorando feito um bebê e ela ajoelhada olhando nos meus olhos e por incrível que parece, não estava mais chorando. Seus olhos me diziam o quanto ela me odiava e depois eu pude ouvir isso.

- Eu te odeio. – disse Alexis olhando dentro dos meus olhos.

- Aprenda com isso Nicholas, que você sempre será um assassino.

Ele colocou a arma na cabeça dela e eu tentava me mover, mas era impossível. Parecia que eu estava amarrado em alguma coisa e meus braços não se moviam de forma alguma. Alexis começou a berrar dizendo:

- Isso é sua culpa! Minha morte é sua culpa! Minha morte é sua culpa! Minha morte é sua culpa!

BANG!

- NÃÃÃOOOOOOOOO! – berrei ao ver ela cair no chão, morta e então eu fechei os olhos.

- Amor? Acorda amor! – sussurrou alguém que eu não conseguia saber quem era.

Eu abri os olhos lentamente e vi o rosto da Alexis bem a minha frente, ela acariciava o meu rosto e tentava me acalmar. Quando percebi, pude ver que aquilo era um pesadelo, e que ela estava viva. Eu a abracei tão forte, mas tão forte que ela mesma estranhou e então eu a beijei.

Beijei-a intensamente e logo após eu disse:

- Eu te amo e prometo te proteger de tudo de ruim que vier aparecer em nossas vidas. Eu estarei do seu lado pra sempre amor, porque você é o meu primeiro e único amor.



Posted on 19:24 by Yuri Costa

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Floresta Vermelha - Parte 1

Meus olhos se abriram e eu me vi no meio de uma floresta. Olhei em volta. Apenas árvores altas e esbeltas brilhando com sua grandeza com o sol da tarde.

Comecei a andar e notei que eu mesmo estava com uma mochila, e blusa fina, bem como calça jeans. Minha visão piscava e eu via a mim mesmo na forma do lobo, mas eu andava como gente normal, humano.

- Eu conheço essa floresta... - falei comigo mesmo. Minha voz parecia tão longe.

Parei um instante e olhei para cima. A floresta estava mais avermelhada, provavelmente por causa do sol se pondo no horizonte. O vento, que antes estava calmo, agora soprou com força de trás de mim me empurrando.

- Frio... - falei e, antes de terminar de me virar, um calafrio me subiu pela espinha até a nuca.

Senti meus olhos se abrirem tanto que arderam. Engoli em seco, virando um dos olhos até a extremidade e vi aqueles enormes monstros, fortes. Alguns que se assemelhavam a ogros raivosos, outros, humanos cobertos por armaduras de sangue e seres onde apenas da cintura para cima era visível.

O sol baixou mais. O vento me empurrou novamente com a sua passada brusca e me fez correr.

Minha respiração ofegante tentava me acompanhar.

"Essa Floresta... Não era assim....  Vermelha..." Eu pensava até tropeçar. Dei sorte de um ogro passar voando por cima e cair atordoado ao longe.

Rápido me levantei e acabei olhando-os de frente. Muitos deles viam atrás de mim, alguns até mesmo a cavalo. Girei novamente e vi uma cabana, me apressando para entrar nela.

- Alô!? Tem alguém!? - gritei insistentemente.

Bati nas paredes e circundei a cabana. Ela foi construída ao pé de uma planície, e a entrada era uma porta emperrada. A distância até ela era apenas uma escorregada pelo chão barrento e úmido.

O chão tremeu com eles se aproximando e vi alguns arcos sendo apontados e flechas se do atiradas em minha direção.

Corri e comecei a subir a planície, circulando a cabana. Me abaixei, girei, esquivei, levantei os braços e escorreguei sem querer para a porta soterrada da cabana. Entrei por uma janela de vidro que se quebrou com o meu peso.

Cai dentro da cabana, reparei que havia sangue em meu rosto. Olhei para o lado e vi uma mulher e uma menina - mãe e filha. Estavam apavoradas olhando para mim do fundo escuro da cabana, que era iluminada apenas por uma lâmpada. 

Atrás de mim, vigas subiram do chão furado próximo da porta e fecharam a janela. Pude ver rapidamente como o sol havia sumido rápido. Estava escuro e barulhento o lado de fora com todos os monstros gritando.


Suspirei e senti o sangue em minha boca também.

Posted on 19:28 by Yuri Costa

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Delírios


- Salgada & Doce Ilusão

Embora eu goste de diversificar e experimentar sensações diferentes, eu tenho os meus alvos preferidos. Já experimentei muita energia positiva e fantasiosa. Algumas mentes são fáceis de manipular, no entanto, difíceis de manter e é por isso que estou me dirigindo para meu último alvo, o meu estilo favorito; aquele que eu acometo á loucura e o levo comigo em forma de energia vital, deste tipo de alvo não sobra nada.
D.

Caminhar na praia era realmente bom apenas quando era noite. Eu sentia meus ombros arderem, embora houvesse fugido do sol o dia inteiro. Era o segundo dia que meus amigos e eu passávamos na praia. As meninas gostavam de tomar banho de sol para voltarem queimadas, mas eu odiava.

Eu odiava tanto o calor quanto a multidão que tomava o local. Sentei-me em uma das cadeiras e tentei ler um livro enquanto as garotas torravam no sol. Infelizmente, eu não consegui ler nem um parágrafo. Aqueles olhos me fitando agoniava-me, eram tantos que eu nem sabia para onde fugir. Desviei o olhar várias vezes e  eles continuavam me perseguindo. Abaixei a cabeça e observei o movimento com o canto dos olhos. Cabeças viravam se para mim com sorrisos maldosos.

Evitei não encará-los. Eles viriam atrás de mim eu tinha certeza daquilo e era apenas uma questão de tempo. Fitei a meninas que pareciam tirar uma soneca sob o sol despreocupadas. Eu me perguntava como elas conseguiam dormir em um local daquele, sob aquele calor. Mais e mais pessoas passavam ao redor da nossa - ou melhor, minha - barraca improvisada com guarda sol e cangas.

Levantei-me irritada e caminhei até o recife que estaria cheio de água àquela altura do dia, mas não fazia mal. Tudo o que eu queria era sentar em uma pedra, sozinha. Caminhei por toda a praia, desviando de várias crianças e mulheres estiradas no chão.

Precisei colocar meus óculos de sol, pois a luz era muito intensa e machucava meus olhos. Olhei para o céu, turvo. O sol era desfocado e as nuvens para mim, nunca tinham forma, eram como borrões brancos no céu azul, tinta branca borrada na tela azul clara.

Casais andavam de mãos dadas perto do mar, sorriam felizes. Isso me fez pensar que eu nunca saberia o que era amar. Nunca fui popular, e as pessoas na escola não falavam comigo. Mesmo esse grupo com quem estou só me aguenta porque minha mãe deu um jeito para eu vir junto, o médico disse que seria bom. A realidade é que todos me acham estranha.

***

Encarei os rostos que me fitavam, eu queria saber onde eles estavam. Várias pessoas me pareciam normais lá, até que eles apareceram. Os rostos das pessoas normais me encarando se transformaram em rostos azuis escuros, com longas orelhas arredondadas e olhos amarelos. Eles estavam vindo. Sai correndo em direção ao hotel e fiquei lá até de noite. Eles não saem à noite, estou segura ao anoitecer. É por isso que voltei para a praia.

Sentei na areia observando o mar, eu não tinha muito o que fazer então só olhei a paisagem, a Lua, tão brilhante, tão sozinha.

— Oi

Pulei a ouvir uma voz do meu lado, achei que eu seria a única estranha que ficaria na praia naquela hora. Olhei para o lado e vi um rapaz, não muito alto. Ele devia ter mais ou menos o meu tamanho, então não passava de um e sessenta e cinco de altura. Possuía olhos castanhos escuros e firmes, cabelo preto brilhante e um cavanhaque pequeno.

— Oi — Respondi sem jeito

— Posso me sentar aqui? — Perguntou apontando para o lugar vago na areia ao meu lado

— Ahm... Pode.

— O que faz aqui sozinha? — Ele perguntou sentando ao eu lado e me olhando fixo nos olhos.

— Nada, estou só olhando a Lua e sendo estranha, como sempre sou.

— Estranha?

— É as pessoas não se aproximam de mim normalmente. Elas sabem que sou diferente.

— Ser diferente não é ruim. É bonito, como a Lua. Sempre solitária, com um brilho único. Bem no centro do céu onde todos podem admirá-la. — Ele disse sorrindo.

— Não é assim que as pessoas enxergam.

— Não enxergam porque são burras. Se acham melhores do que as outras, estipulam o que é ser normal e julgam quem não se encaixa naquele conceito. Você não deveria entrar nesse jogo idiota. Uma garota como você é especial, não deixe que digam o contrário.

Ele era especial, tão bonito e educado. Eu nunca havia conversado com alguém que pensasse daquela maneira antes. Eu estava cansada de ter que fugir dos homens azuis, das pessoas me acharem estranhas. Eu não sabia o nome dele, mas não importava, gostaria de ficar com ele para sempre.

— Você os vê? — Ele perguntou olhando para o mar.

— Quem? — Perguntei confusa.

— Os homens azuis.

Arregalei os olhos.

—Eu os vejo — continuou ele —, nunca tentei conversar, porque sei que eles viriam trás de mim. Mas acho que arrumei um jeito de evitar isso.

— Arrumou?

— Sim — Respondeu sem olhar para mim ainda fitando o mar.

— Você... Me protegeria deles?

— Claro — Respondeu com um largo sorriso branco, muito bonito.

— Obrigada.
— De nada.

Ficamos quietos por algum tempo, até ele finalmente falar.

— Sabe por que venho aqui à noite?

— Não.

— Porque eles não estão e porque a água é morna. — Disse tirando a camiseta e correndo até o mar. Ele se virou para mim com um sorriso ao perguntar.

— Você não vem?

Hesitei um pouco, eu não gostava de entrar na água.

— Você me protege?

— Claro que sim — disse já entrando na água.

Larguei o chinelo e corri em direção ao mar, sentindo a água em meus pés, subir até a minha canela, depois minha cintura e logo estava no meu pescoço. Era morna, como ele disse. O rapaz estava sorrindo á minha frente. Essa foi a última visão que tive dele até meus pulmões estarem cheios de água e meus olhos se fecharem.  Naquele dia eu me senti mais viva do que jamais havia sentido, mas morri afogada em minha ilusão.
  
Sonhos, Vozes, Ilusões. Todos são tomados por algum tipo de sentimento que os prende e contagiam por algum motivo, pelo menos por alguns minutos. Algumas pessoas se livram logo desses sentimentos, em outras, eles perduram. Até onde você é capaz de aguentar? Vago por aí em busca de alimento; estou em todos os lugares, em todas as pessoas, estou ao seu lado agora. Lute se for capaz. Vejo-te em breve.

D.

Posted on 14:32 by Yuri Costa

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Capítulo 4


Depois de algum tempo cuja quantia não sabia com precisão, pude sentir-me sendo carregada até algum lugar. Sempre tive o sono bastante leve e ainda que não possuísse, havia se tornado impossível não distinguir o calor dos braços de Nicholas. Notei também que havia feito à barba, agradeci mentalmente e voltei a dormir entrelaçada em seus braços.

A manhã chegou sereníssima, levantei-me primeiro como de costume e selei a bochecha de Nicholas sem que acordasse. Era sábado, eu havia decidido que não trabalharia. Desmarquei meus compromissos e decidi que iria cuidar de mim, mas não sem antes saber por que Nick havia dado as caras tão tarde em casa. Caminhei para o banheiro sem fazer muito barulho, olhei-me no espelho rapidamente e respirei fundo. Logo me despi e adentrei ao Box, sentia a água morna escorrer em minha pele como uma massagem. Depois de ensaboar-me permaneci debaixo do chuveiro com o braço apoiado na parede escondendo a face como quem pensava na vida.

Percebi que estava demorando demais e então fechei o chuveiro. Sequei minhas madeixas no banheiro mesmo e segui até o closet enrolada na toalha. Escolhi uma roupa bem light e ajeitei-me rapidamente para dar tempo de preparar o café.

Ao passar pela sala deslizei a mão no rack que se encontrava o som da casa e selecionei uma sequência de músicas. A primeira era Brand New Me...

It's been a while, I'm not who I was before. You look surprised, your words don't burn me anymore. Been meaning to tell you, but I guess it's clear to see, Don't be mad, it's just the brand new kind of me...

Coloquei a música não muito alta, embora o suficiente para que pudesse ouvir da cozinha sem que Nicholas acordasse. Segui até ela e danei a preparar algumas panquecas, fiz café, suco e mais algumas coisinhas. O apartamento de Nicholas não era do tipo familiar, então não havia uma mesa de jantar grande, era diferente do que eu estava acostumada, mas eu estava gostando dessa maneira de viver. O café era servido num balcão, o mesmo que dividia a sala e a cozinha americana.

Organizei as coisas e andei até o quarto para ver se já havia acordado. A cama estava vazia e amarrotada. Nicholas só podia estar no banheiro. E estava...

− Amor, o café está pronto, ok?

Aproximei-me da porta do banheiro e avisei-o.

− Já estou indo, Alexis, faz um favor pra mim?

− Sim?

− Pega a toalha pra mim?

− Ok!

Dirigi-me até o closet e procurei com os olhos a repartição do armário onde ficavam as toalhas. Equilibrei-me na ponta do pé e apoiei a mão esquerda na porta de correr. Enquanto puxava uma toalha de dentro do guarda-roupa, acabei por me desequilibrar e escorregar caindo dentro dele. Cai sentada e bati as costas no fundo do armário, ouvi um barulho como se algo estivesse desencaixando. Ao virar-me para ver o que era Nicholas apareceu.

− Se eu soubesse que causaria tanto estrago não lhe teria pedido para pegar...

Ao ouvir aquelas palavras logo demonstrei minha irritação através de um olhar nada admirável. Levantei-me ignorando sua ajuda e entreguei-lhe a tolha em mãos.

− Aproveita que gosta de fazer tudo sozinho, como chegar tarde da noite em casa e pegar a toalha, e toma café sozinho também!

Olhei-o rapidamente de soslaio antes de sair do closet e pude perceber sua irritação ao jogar a toalha de volta no guarda roupa. Ele estava enrolado na minha e eu não havia percebido.

Dirigi-me até a sala e peguei as chaves do carro em cima da mesa de centro, sai do apartamento com tanta pressa que acabei esquecendo o celular. Eu não sabia exatamente para onde iria agora que minha única amiga estava morta. Não que eu não tivesse outras pessoas para conversar, mas sobre o Nicholas, deveria ser somente a Eliza.

Vaguei pela cidade até me encontrar de frente para o Café de Dona Rose. Adentrei ao local, já havia algumas pessoas como sempre. Procurei-a com os olhos e não a vi, no mínimo deveria estar na cozinha preparando uns de seus deliciosos macarons.

Alguns passos a mais e me vi diante do balcão, lá estava um rapaz diferente do que eu estava acostumada a ver naquela cidade. Pele alva, até demais, olhos azuis e madeixas em tom claro. Possuía uma singela barba que por incrível que pareça eu havia gostado. Depois de analisá-lo completamente percebi que estava encarando-o a menos que 5 minutos. Senti minha bochecha esquentar por tamanha vergonha e para quebrar o gelo resolvi fazer meu pedido rapidamente.

− Quatro Macarons variados e um suco de laranja, ok?

− Anotado!

Voltei-me para as mesas e sentei em uma bem próxima a janela. Aguardei-me apenas alguns minutos mais e logo vi Dona Rose sair da cozinha com uma bandeja repleta de Macarons. Senti minha boca encher d’água. Meus olhos no mínimo estavam reluzentes, pois ela logo veio em minha direção acompanhada do balconista que havia anotado meus pedidos.

− Alexis, meu amor, o que faz aqui sozinha?

Indagou-me enquanto colocava sobre a mesa o copo de suco e o prato com Macarons.

− Tivemos um estresse essa manhã e resolvi deixá-lo pensar em um bom pedido de desculpas para mim.

Respondi em tom sério e logo depois soltei uma risada.

− Ah, logo se entenderão, Nicholas é um bom garoto.

− É...

Respondi enquanto inclinava o rosto em direção ao rapaz que lhe acompanhava e antes que pudesse lhe perguntar, ela mesma comunicou-me de que era seu filho que havia acabado de chegar da Austrália. Meu coração logo apertou, já imaginava o que iria me pedir.

− Alexis, quero que leve meu filho Dilan para conhecer a cidade, por favor, eu não tenho tempo. Você sabe... Não quero meu garoto nas mãos de nenhuma dessas meninas daqui que não sejam de sua confiança.

Engoli a seco seu discurso, eu sabia que isso não ia dar certo, mas me propus a ajudar.

− Tudo bem, Rose, eu o levo agora se quiser.

− Magina, termine seu café. Dilan ainda tem que me ajudar com algumas coisas aqui na loja.

− Tudo bem então depois do almoço eu passo aqui, tudo bem pra você Dilan?

E então o rapaz que ainda não havia pronunciado uma palavra sorriu com os olhos e finalmente falou.

− Claro, sem problemas!

Rose e Dilan dirigiram-se de volta para a cozinha, e eu permaneci terminando de tomar meu café. Alguns minutos depois, o chamei para que pudesse pagar pelos Macarons e o suco.

Entreguei-lhe o dinheiro trocado e levantei-me para partir, antes de sair lembrei-o de que mais tarde voltaria para que pudesse levá-lo para conhecer a cidade. Já do lado de fora do estabelecimento respirei fundo por pensar que já teria de voltar para casa. Mas não tinha outra escolha, tinha que preparar o almoço...

Depois de alguns minutos estava de volta ao apartamento, antes de abrir a porta percebi um silêncio angustiante. Girei a fechadura e abri-a lentamente como quem procurava por algo sem passar a ideia. Quando entrei completamente assustei-me ao ver Nicholas preparando o almoço. Deixei as chaves em cima da mesa e decidi não interrompe-lo.

− Como foi o café?

Fui enquadrada por tal pergunta de maneira ríspida. Senti um calafrio, mas não deixei transparecer.

− Ótimo, conheci até o filho da Dona Rose. Dilan, o nome dele... - Comentei.

− Quantos anos ele tem? 5?

− Não, sabe que eu não sei? Mas depois eu te falo, mais tarde iremos sair.

Pude ouvir a faca bater no fundo da pia. Os pelos de meus braços logo se arrepiaram, minha respiração ficou ofegante e por um segundo fiquei com medo do que ele poderia fazer.

− Vão sair?

Indagou-me outra vez.

− Sim, eu o levarei para conhecer a cidade...



Sai andando pelo apartamento enquanto respondia a todas as suas perguntas ao mesmo tempo. Eu definitivamente havia o estressado. Verifiquei o fundo do closet e estava intacto, decidi não mexer nele agora. O almoço mais pareceu um enterro, só se ouvia o barulho dos talheres baterem no prato e a música que deixei tocando até sair.

Depois de almoçar ajudei-o com a louça, dirigi-me até o banheiro escovei os dentes e fiz uma maquiagem leve. Pude ouvir um barulho no quarto...

− Alexis?

− Oi Nicholas...

− Você vai mesmo?



Encarei o espelho e respondi-o pela terceira vez.

− Vou Nicholas, já disse, que droga!

Acabei me exaltando e ao sair do quarto Nicholas surpreendeu-me segurando meu pulso, e pressionando seu corpo contra parede do quarto.

− Não grite...

Sussurrou perto de meu lóbulo mordiscando-o levemente. Pude sentir um formigamento estrondoso percorrer minhas entranhas e antes que pudesse falar envolvemo-nos em um beijo intenso, silencioso e lúgubre.

Posted on 15:47 by Yuri Costa

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“O Dever Sempre Chama”

“Mesmo quando você está em um lugar só para descansar... E o seu dever chama, você nunca relutará”.

***

Estava eu e alguns colegas de uma escola em uma estação de trem. Não estávamos lá a passeio. Pra ser mais exato, eles precisavam passar por lá e eu, em forma de espírito de lobo, estava os acompanhando e ajudando.

A estação toda destruída e desmoronava em pedaços menores enquanto pedras caiam a todo instante. Diziam que se ficasse ali por um dia, poderia se ver uma parede cair como se fosse pó de tão velho que era. Estava chovendo naquela manhã, mas o céu não estava escuro, apenas fechado e claro pela luz do sol. A chuva que caia não era forte, mas fria.

Eu os guiava para dentro da estação pela entrada da frente.

- Sigam por aqui – eu falava para o garoto em forma de espectro. - Sigam reto pelo corredor agora – eu avisava a garota que estava junto.

Os dois seguiam tranquilos. Apesar da estação feita toda de pedras estar muito molhada, o caminho estava fácil para chegar até a plataforma.

- Lobo – começou a falar a garota que apontava para frente, tirando de meus pensamentos que estavam longe.

Olhei e a passagem estava bloqueada por um grande entulho de pedras e lama. Havia ainda dois canos espirrando um pouco de água.

- Foi só pensar que estava tudo bem e já deu problema – falei em tom de risada enquanto olhava em volta. Vi mais a frente uma brecha no buraco que servia para passarem ambos. - Venham um pouco mais a frente e entrem por essa brecha que vocês estarão na plataforma, bem onde queremos – falei.

Logo eles se aproximaram. O garoto passou primeiro, e ajudou a menina que quase escorregou a subir pela pedra molhada, a descer e a seguir pela brecha até sair do outro lado. Na plataforma, não demorou muito e ouviu-se o som de trem chegando, mas não estava nos trilhos corretos. Dentro dele haviam pessoas, todas iriam fazer o mesmo "teste", incluindo os dois comigo.

- Eles também vão fazer o teste, Lobo? – perguntou-me a garota.

- Sim – respondi, e só agora estava reparando nos dois comigo. Pareciam ser irmãos. Pelo jeito que o garoto a segurava, sempre a abraçando e a acariciando, deviam ambos ter dezessete anos.

Comparando com as roupas das pessoas que estavam no outro trem, as destes dois eram bem mais simples. A garota usava uma calça simples, de cor azul clara. Ela tentava insistentemente esconder o rasgo que teimava em aparecer na altura da coxa, assim como usava o cachecol em volta do pescoço e em cima de uma jaqueta que claramente estava surrada de velha, mas sua camisa branca estava impecável. Com certeza a comprou em algum lugar recentemente e especialmente para o momento. Sapato simples. A boina em sua cabeça, grande e velha, também não parecia ser dela, mas ela as vezes a segurava com tanta firmeza enquanto andava por dentro da estação que parecia ser a coisa mais importante dela.

Rapidamente olhei para o irmão, que estava com uma calça jeans azul escura e molhada, além de suja de toda a água e barro que ele havia passado e ajudado a irmã a passar. Do jeito que ela conversava com ela, ele não ligava para isso, e nem para o fato de sua blusa e camisa estarem molhadas, mas ao menos não estavam rasgadas. Eram um pouco maiores que ele. Provavelmente suas roupas também fossem emprestadas.

O nosso trem chegou um tempo depois e não era velho. Muito pelo contrário, parecia bem novo além de ser de um vermelho forte e vivo, lembrava a sangue. Logo que as portas automáticas abriram eles entraram, e eu entrei depois. O trem fechou a porta e deu partida devagar, com o puxar da velocidade. Ambos se seguraram em ferros no teto, o irmão segurando-a ainda pelo ombro enquanto o trem ia aumentando a velocidade por algum tempo até padronizar.

“Apesar deu estar lá aparentemente apenas para guia-los, os meus superiores nunca me mandam para ajudar alguém, simplesmente para ajudar, isso eu já aprendi... então por que eu estaria ali...?” eu pensava arduamente comigo.

- Olhe – Disse o garoto apontando para o lado de fora do trem, do lado contrário onde eles entraram.

- O quê? – Sai de meus pensamentos e vi o outro trem que havia passado por nós mais cedo. Era de um azul meio claro desbotado e mais pra verde. Havia muitas crianças dentro com alguns adultos instrutores. Ouvi a irmã falar com o seu irmão sobre o passado de ambos e ele a abraçou.

Puxei o assunto sobre e começamos a conversar. Ficamos conversando por algum tempo enquanto o nosso trem passava pelo outro ficando em paralelo com ele. Não demorou muito e senti o meu corpo, mesmo que não físico, estremecer.

Logo depois o trem parou de maneira abrupta.

- Vai acontecer agora o primeiro teste de vocês – falei para ambos.

Por algum motivo o ar ficou tenso e ninguém sabia o motivo. Pude ver claramente os dois se apertando.

Ambos ficavam olhando em volta.

- Qual vai ser o teste, senhor Lobo? – me perguntou o garoto.

- Não sei... – admiti.

Nesse instante o vagão inteiro tremeu uma vez e de novo, de novo. Tremeu tão forte que os dois caíram no chão mas se seguravam forte numa barra de ferro reta perto da porta.

“Como se algo ou alguém andasse na lataria lateral” Pensei comigo mesmo desconfiando de algo, mas os vagões eram a prova de som, por isso não tinha certeza.

Olhei pro lado e havia uma porta de ligação entre os vagões.

- Vou ver uma coisa, já volto – falei e entrei em transe.Aumentei a minha magia e me copiei fracamente para o vagão do lado.

Apareci e logo que meus sentidos se normalizaram e minha visão ficou nítida, ouvi e vi outras pessoas, gritando pedindo por socorro desesperadamente enquanto um demônio grande e vermelho, de longas pernas e chifres a amostra, sem pelos mas com pele escamosa e grossa que cobria todo o seu corpo, matava as pessoas dentro do vagão tranquilamente.

Meus olhos se arregalavam ao ver as enormes garras rasgar tudo e todos tranquilamente.

Sai de lá rapidamente e voltei para onde estava, pisquei e fiquei atônito.

- Então, senhor Lobo – me perguntou o garoto – O senhor parece estar pálido para um espectro.

Respirei fundo.

- Um demônio lá atrás no vagão... – falei finalmente pensando em tudo o que havia visto.

- O quê?! – falaram os dois, claramente começando a se exaltarem.

- Um demônio esta devorando todo mundo que entrou a uma estação antes de nós... – expliquei.

O óbvio no momento aconteceu. A menina começou a se desesperar, gritar e chorar, enquanto o garoto se levantou e começou a andar frenético de uma porta a outra.

Voltei para lá, agora de forma completa. Deixei-os a sós por um momento para olhar a situação do outro grupo. Eu sentia náuseas ao ver aquela situação mas não podia fazer nada. Ninguém me via ali e, prestando atenção, reparei nos detalhes.

Os olhos do demônio eram amarelos e vazio.

“Ele não enxerga...” Pensei.

O demônio atacava primeiro as pessoas que gritavam e tentavam correr pelo vagão.

“O monstro se guia pelo som e pelo exaltar das vítimas... Talvez pelo calor que emana nessas condições ele consiga ver....” Pensava, ainda com um aperto enorme dentro de mim.

Mas ele era muito rápido.

Rapidamente ele saiu de onde estava, após matar todas as pessoas de lá, e segurando-se pelo teto do vagão ia andando pela lateral. Rápido, ele veio até onde os dois que estavam comigo estava.

- Droga! – Falei e voltei para o vagão dos irmão de volta.

Em seguida a porta do vagão, bem onde os dois estavam, se abriu sozinha.

“Como isso é possível?!” Pensei de olhos arregalados de raiva e gritei rapidamente para os dois assim que vi os chifres aparecerem.

- Não se mexam! Não gritem!

E ele apareceu na porta do vagão. Parou com o casal de irmãos bem entre as suas grandes e longas pernas dobradas apoiadas no chão do vagão.

Ele parou e mexia a cabeça para os lados como se olha se para dentro, as vezes tentava farejar.

- Não grita... Não grita... – Eu repetia para ambos – Ele não consegue me ver.... – eu tentei explicar e ficava mexendo as mãos de cima para baixo para o casal, tentando evitar que olhassem para cima ou para trás para que não vissem o demônio de frente.

Olhei para a menina, que tentava não tremer se segurando no chão de olhos fechados. Lágrimas escorriam silenciosas por seu rosto, enquanto o garoto, abraçado com ela fortemente e quase imóvel, tapava sua boca, ambos de costas para o monstro, mas bem embaixo dele.

O demônio não sentiu nada e saiu, seguindo para o vagão da frente. Notei que eu estava certo, e que ele também não sentia cheiro. Rapidamente um outro trem passou, cheio de gente e também azul. O demônio saltou para ele, quebrou uma porta com o seu punho e entro no vagão. Os irmãos, notando o barulho, se viraram para trás e viram-no entrar no vagão.

As pessoas dentro, a maioria crianças, começaram a gritar. Os adultos a se desesperaram, perguntando o que era aquilo.

A menina apenas soltou as lágrimas contidas e apertou as mãos juntas enquanto o irmão mostrou os dentes de raiva, ambos apenas olhando o trem se afastar rápido sem poder fazer nada.

Respirando fundo e comecei a falar.

- Agora... Vocês estão a salvo para seguirem e irem terminar o teste de vocês – terminei.
- Mas! – quase gritou a garota, respirando e voltando a falar – Mas... e se ele voltar...? 

O seu irmão olhava pela porta aberta para ter certeza de que não havia mais nenhum demônio, aliviado.

- Vocês vão estar a salvo – falei e logo emendei enquanto olhava o outro trem se afastar mais – Caso apareçam outros, basta ficarem um pouco em silêncio e imóveis.

Nesse instante o trem tomou ignição e começou a se movimentar novamente, aos poucos pegando velocidade. Fui para a porta aberta e vi outro trem de cor azul mais desbotado se aproximando.

- Pessoal... – Me voltei para os dois que se seguravam na barra de ferro, mas agora de forma firme – Vocês estarão seguros assim que chegarem na próxima cidade e não precisam mais de mim. – Terminei de falar e o nosso trem deu uma guinada na velocidade ficando novamente em paralelo com outro trem ao lado.

- O que o senhor vai fazer? – perguntou a garota.

- Vou tentar resolver o problema que esse monstro está criando – respondi para ela, observando que ela tirava a boina, segurando-a bem apertado junto do peito dela, deixando o cabelo solto.

- Se cuide, senhor Lobo – me agradeceu ela e logo emendou – E obrigado por nos escoltar para chegarmos ao nosso destino final...

- Muito obrigado mesmo – falou o irmão dela, também agradecido e mais calmo.

Ouvi a garota soluçar.

- Você está bem? – perguntamos eu e o seu irmão juntamente.

- Sim... – respondeu ela para nós e foi sentar-se.

O trem começou a curvar-se para a esquerda e rapidamente me segurei no ferro de cima, balancei forte até pegar velocidade e impulso e saltei para o outro trem que seguia reto, acenando de dentro do trem para ambos.

O vagão estava vazio, e me bateu uma tristeza por deixá-los sozinhos.

- Se cuidem... – falei.

Olhei para fora pela outra porta. Por estar em forma de espirito era fácil, além de divertido. Reparei que os três trilhos faziam caminhos diferentes. O meu seguiria reto e pelo meio, enquanto o do demônio foi para um desvio a direita. Voltei para a porta que estava e olhei para frente do vagão que já estava diminuindo para parar no ponto final, numa pequena vila. Quando o trem estacionou, praticamente no meio da vila, eu desci por uma pequena escada que levava até o chão que estava molhado e barrento.

Era uma vila simples, bem simples. Tinha uma fonte que estava ligada e jorrando água do topo. Era bonita e ficava na frente do trem estacionado, as ruas eram asfaltadas, apesar da saída do trem ter sido no barro.
“Meu tênis sujou com o barro?” Percebi. Olhei em volta enquanto andava e tinha igreja, universidade e escola, mas não vi carros, apenas charretes.

- Curioso... – comentei comigo mesmo enquanto andava.

As pessoas conseguiam me ver naquele local, mas nenhuma se importou comigo lá. Não entendi o porquê, mas realmente eu estava lá muito visível.

Enquanto caminhava, observei uma escola por onde entrava pela garagem, além da casa, muito simples, estava coberta por plantas e trepadeiras. Havia algumas flores molhadas mas simplesmente por falta de sol.
O céu permanecia fechado.

Acabei por entrar na escola. 

Passagens apertadas.

Enquanto eu caminhava pelos corredores, eu via vários alunos fazendo um teste.

- Seria esse o teste que os dois foram fazer...? – perguntei comigo mesmo.

- Felipe – Parei ao ouvir a voz de um homem chamando pelo meu exato nome.

Me virei e era um professor que estava parado na porta de uma sala com um sorriso de aprovação mas faceiro.

- Ei, você está atrasado para a substituição do teste, meu caro – me disse ele sorrindo e entrando na sala, pedindo que eu o acompanha-se.

Voltei e entrei logo depois dele e comecei a olhar o teste dos outros. Eram sobre o demônio de antes, mas, em questões de respostas, bastava assinalar verdadeiro ou falso, com uma simples gravura dele.

“Queria ver como essas pobres crianças reagiriam ao ver ele pessoalmente...” Pensei e parei assim que cheguei na mesa do professor.

- Então – começou ele, e meus olhos se puxaram para prestar atenção. – Como você vai fazer a prova também? – me perguntou ele, me olhando agora por cima de seus óculos de leitura e redondos.

“Aqueles olhos... azuis e cheio de segredos” pensei comigo até parar atônito e de boca aberta.

Estava tendo uma visão:

“O demônio iria voltar dentro de um trem vermelho, destruir a vila e todos os moradores, não iria sobrar nada na vila a não ser lembranças”.

Pisquei voltando a respirar e olhando para o professor a minha frente, lhe respondendo meio abrupto.
- Não vou fazer professor – respondi lhe dando as costas com pressa. – E licença. – Falei já saindo mas não antes de virar meus olhos para ele e ver que ele sorria para mim, e anotava algo em seu bloco de papel amarelo.

Corri para a rua e vi uma moto estacionada. Uma ideia me passou pela mente. Cheguei nela, era grande e preta além de nova, gritei para o professor que iria pegá-la. Tive certeza que era dele, já subindo, ligando-a e saindo em disparada em direção aos trilhos do trem enquanto pensava arduamente.

O demônio vai devorar a vila inteira por algum motivo, não posso deixar...

E acelero pelas ruas até chegar nos trilhos.

A moto salta, balança e treme junto ao andar sobre os trilhos e seguir na direção contraria ao que o trem viria. Não demorou muito e eu vi o trem vindo em minha direção, vermelho e rápido.

“Lá está... Vou impedi-lo antes dele chegar na vila.” Decidi acelerando a moto ao máximo que podia.
Soltei uma das mãos do guidão e olhei para o trem. Coloquei dois dedos na testa e fechei rapidamente os olhos e os abri, estavam vermelhos. Apontei os dois dedos para o vagão e movi-os para o lado direito.

O trem virou junto e descarrilhou.

Começou a tombar, e empinei a moto ficando com apenas a roda de trás encostando no chão e seguindo. Em fração de segundos, levantei a outra roda do chão, sai de cima dela segurando-a e puxei para junto de mim. Empurrei-a com uma força brutal. A moto inteira levantou no ar em direção ao trem. Ao se chocarem, explodiu, fazendo o trem desacelerar ligeiramente ainda longe. Pedaços da moto voaram para os lados pegando fogo.

Eu ofegava um pouco. Fazia algum tempo que eu não fazia esse tipo de coisa. Sorri um pouco, satisfeito, enquanto eu olhava o trem pegar fogo.

Uma voz narrou ao meu ouvido.

“Mas ele pegou o trem errado” Pude ouvir uma risada simples mas notável no final, alguém rindo da situação.

Vindo lá trás, o outro trem em outro trilho que não estava bloqueado, com o monstro.


Fiquei parado, e minha espada apareceu. Meus olhos tornaram-se vermelhos enquanto eu aguardava a luta começar.

Posted on 20:18 by Yuri Costa

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