funeral.
de yuri costa.

- Eu quero vê-lo - disse a velha, aproveitando-se do atraso da missa e do padre, já se apoiando no banco à sua frente e fazendo força para se levantar.
Seguiram-se inúmeros protestos, mas a velha foi irredutível. Ignorava que já não tinha coração de moça; o peito já não aguentava sofrimento nem alegria além da conta. Similarmente, o pulmão lhe falhava nos momentos errados, roubando seu ar e obrigando-a a esquecer a vida por uns instantes intermináveis para repor as energias que outrora lhe vinham com tanta facilidade. Também era forte para todos a lembrança do derrame que tivera no ano anterior - o primeiro, mas não seriam inocentes de pensar que era o último -; não deixara grandes sequelas, mas cruelmente atingira suas pernas, o que, somado à fraqueza dos ossos, transformaram o ato de andar num esforço hercúleo.
Era um quadro estarrecedor para qualquer passante, e mais assustador ainda para os mais próximos, que, silenciosamente, não pela primeira vez, previam e temiam (e também não deixavam de desejar) o inevitável e inadiável para findar as dores. Mas ninguém jamais diria que ela era um estorvo, não. Talvez uma ou outra esposa distante, que não aguentava a visão dum velho, mas os outros, todos muito solidários, de bem, não teriam a coragem de constrangê-la. Não era, entretanto, uma angústia compartilhada. Se a velha sentia medo, não se sabia. Era inexplicável a forma como se movia na vida. Uma invisível que fazia questão de ser invisível para não se tornar um quadro, o centro das atenções, uma desagradável. Por isso mesmo dispensou todas as mãos e todos os clamores, levantando-se sozinha e trêmula, não pela sua decisão, mas pelas dores em seus músculos e em sua carne. Às vezes o sangue parecia pedra em suas veias. Pôs-se de pé, e tomou um segundo para respirar fundo, de olhos fechados - um sinal para os outros, mera rotina para si mesma. Cambaleou a curtos e vagarosos passos para fora dos longos bancos de madeira, apoiando-se e equilibrando-se muito mal, muito perigosamente para alguém de sua idade. Poderia cair e terminar de se quebrar.
Ignorava todos os aspectos fúnebres e decadentes de sua caminhada. Dispensou mais uma vez a ajuda, desta vez para percorrer os dez metros até o altar. Seria a primeira vez em um bom tempo que andaria sozinha, apenas ela e sua bengala, à exceção dos momentos em sua casa, sozinha. Nunca dispensara acompanhantes, nem qualquer tipo de ajuda. Parecia agradar mais ao benfeitor do que a ela própria. Mas aquele instante era diferente; não exatamente pessoal, ou ao menos não mais pessoal do que para aquelas quarenta ou cinquenta pessoas ali presentes, mas era algo seu consigo mesmo, um momento reservado para a imprudência, até mesmo negligente. Andou de olhos baixos, sempre atenta ao chão em que pisava, liso, mas não seria a primeira vez se lhe reservasse alguma surpresa. Levantava o olhar apenas para avaliar o caminho, e, nisto, inevitavelmente encontrava os olhos de quem observava com curiosidade, compaixão e até horror. Não era algo que qualquer pessoa gostaria de ver. Se pudessem tapar os olhos, o teriam feito, mas o espetáculo tinha maior clamor. De certa forma, era uma lembrança - mais lembrança que as próprias roupas negras ou os olhares tristes -, um retrato vivo do que cada um se tornaria.
Chegou aos degraus, último obstáculo que a separava do pequeno caixão. Percebera este fato, o quão pequeno era, no momento em que levantava suas pernas com dificuldade, uma de cada vez, numa demorada e dolorosa escalada. Era tão errado. Tão errado que aquela ordem, completamente contrária à natureza, vigorasse sobre o prédio, sobre o dia e sobre as famílias reunidas para se despedir. Dizer adeus parecia errado. Era um caixão, de fato, pequeno demais. E o morto parecia ainda menor, agora, de perto. Haviam feito um trabalho muito bom para fazer passar a morte como um simples adormecimento, mas a rigidez não mentia para quem o conhecesse, de fato. Nunca aquela criança inquieta estaria tão pacífica consigo mesma. Mais errado ainda. Era como olhar na face do fim do mundo, e senti-lo olhar de volta.
Houve expectativa nos momentos seguintes. Esperavam-se gritos, protestos ou O PIOR. A velha parecia frágil como nunca, como nunca antes. Tremia, porcamente equilibrada. A igreja inteira parecia pronta para socorrê-la; a urgência de seu estado e da possível situação surpreendentemente lhes fizeram esquecer do porquê de estarem ali, do que saudavam. A velha, entretanto, não derramou nenhuma lágrima sequer. Respirou fundo, como o tempo lhe ensinara a fazer, e encarou os olhos fechados da criança. Assim permaneceu por um longo período. Pressionou seus lábios murchos, úmidos e quentes contra a testa lisa e fria do morto, e então separou-se, e, pelos momentos seguintes, nada mais fez além de olhar para cima. Não era possível saber o que pensava. Virou-se e fez todo o caminho de volta, em silêncio. Ignorava agora também toda a estranheza de seu ato, e não se divertia com a maneira como os convidados desviavam o olhar, subitamente envergonhados de terem acompanhado a coisa toda. Apenas seguiu caminho, e desta vez aceitou ajuda para se sentar.
Não se sabe o que fizera nos dias seguintes. Não compareceu à casa dos pais após o fim da cerimônia; aceitou uma carona para casa, onde estaria confortável consigo mesma e saberia se virar sozinha, mesmo sem a ajuda da cuidadora, que estava de férias. Sabe-se apenas que, no dia seguinte, apareceu cedinho na padaria, como sempre fazia, com seus olhos negros baixos e marcados pela idade, e mais uma vez voltou para casa sozinha, onde permaneceu até o dia seguinte, quando o ciclo se repetiria. Ela sempre voltava para casa sozinha.

Posted on 11:08 by Yuri Costa

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Desastre Natural

“Uma visão. Foi tudo o que tive antes de ser intimido de ver o que aconteceria a minha terra... Sem poder impedir... Sem chance para nada...”

O vento estava forte e frio na minha última noite nesta cidade, como humano, como Lobo protetor dela. Eu estava sentado no chão do meu quarto, era quase meia-noite e todos dormiam profundamente. A coberta que eu estava usando, grande e escura, com estrelas e luas minguantes desenhadas, me cobria todo o corpo encolhido. Minhas lágrimas não paravam de cair de meus olhos e molhar o chão de madeira.

Eles não demoraram a chegar.

- Você é o.... Lobo? – perguntou um jovem homem sem camisa, com um pano branco caindo da cintura para baixo, amarrado no meio por outro pano azul. Seu corpo moreno e bem desenhado me fez olhar para ele por algum tempo admirando-o mais do que as belas asas brancas e reluzentes sem que eu respondesse.

- É ele sim – respondeu outro, jovem garoto, mas este mais velho, já com barba e um corpo mais branco. Também havia um bracelete dourado no seu braço direito. A roupa que ele usava era a mesma do outro, porém as asas reluziam mais amareladas. A do outro era de um tom mais azul.

- Vamos? – me perguntou o mais branco com o rosto não sério, mas que também não demonstrava nenhum sentimento. – Por favor – insistiu ele após um tempo de silêncio com ambos me olhando.

- Senhor... Lobo? – chamou o jovem que estava claramente mais chateado.

- Tenho alguma outra opção? – respondi me levantando sozinho e mostrando o meu rosto claramente molhado das lágrimas que haviam caído do meu rosto sem parar, e ainda não haviam parado, por mais que não estivesse fazendo nenhum som de choro.

Ambos abriram as asas e eu logo também abri as minhas, que reluziam em azul como as do mais jovem. Percebi que o jovem me fitava surpreso e, como eu não estava feliz, fui grosso.

- O que está me olhando? – perguntei de maneira seca.

- Nada... desculpe – falou ele constrangido e logo me olhou nos olhos e falou novamente. – Eu só não esperava que o senhor fosse um Lobo... muito menos com asas.

- É o que todos dizem – respondeu o outro sem olhar para mim.

***

Eu havia tido uma visão naquela manhã.

Eu acordei e não senti nada. Simplesmente nada. Abri a janela de meu quarto e o sol brilhava fosco, o vento não passava, nem a sua filha, brisa. 

Não ouvi nenhum pássaro cantar ou algum inseto voar.

Tudo parecia cinza.

Havia apenas os barulhos dos motores dos carros que passavam pela rua apressados, o cheiro da gasolina sendo queimada e soltando aquela fumaça quase preta, se não fosse preta, que com certeza mataria muitos.

- Lobo – ouvi uma voz feminina e olhei para o lado. Vi uma mulher bela, de rosto liso e esbranquiçado, o seu vestido rosa claro cheirava a flores e em seus pés, grama verde brotava.

- A senhora é.... – não consegui concluir a frase enquanto observava ela caminhar em minha direção. Cada passo trazendo cor, a essa visão quase sem vida, trazendo a vida de volta até ela parar do lado de fora da grade que me separava dela.

Eu dentro de meu quarto, onde a única iluminação fosca vinha do sol e não adentrava o quarto. Ela do lado de fora, cheia de vida e cor.

- Decidimos deixar esse mundo de vez – começou ela a falar em um tom triste. – Resistimos o quanto pudemos, o quanto aguentamos... – Vi seus olhos se encherem de lágrimas –, mas todos acharam melhor ir embora daqui... Assim como os espíritos dos Ventos, da terra, da água e do fogo...

Meus olhos se arregalaram de espanto enquanto ela continuava a falar.

- Todos os seres vivos que estavam aqui decidiram o mesmo... os únicos que ficaram, foram aqueles que decidiram ficar até o final... Com os humanos que amam... – terminou ela.

Meu coração bateu forte e sem que eu percebesse, já estava do lado de fora do quarto, correndo pelo caminho estreito entre a minha casa e a parede procurando pelo meu cachorro, sem sucesso. Num piscar de olhos, ela apareceu novamente em minha frente, agora com a visão cinza e panorâmica dos prédios, estrada e construções a frente, enquanto as árvores que haviam estavam cinza também, sem vida, sem brilho. Apenas madeira sem vida.

- Lobo... você não está permitido a ficar neste mundo... – fez uma pausa. – Nem você, nem o seu cachorro, nem alguns outros valorosos seres e humanos que vivem aqui. Por isso, serão levados por enviados de anjos... – Falou-me com um sorriso simples. – Nos perdoe por tê-lo trazido novamente a essa terra...

***

Senti duas mãos em meus ombros e fui puxado de minha visão de volta para a realidade escura da noite e sem sentidos da noite. Quando percebi, eram eles novamente.

- Vamos...? – perguntou novamente o jovem mais velho, mas agora em um tom de preocupação enquanto me olhava.

- O senhor realmente ama esta terra não é....? – perguntou o mais jovem.

- Sim... – respondi prontamente e respirando fundo. – Quero ver o que vai acontecer antes de ir embora... – falei olhando-os com meus olhos cansados.

Após se entre olharem o veredito rápido e simples.

- Está bem – me respondeu o mais velho que em um piscar de olhos me levou ao alto da cidade. Era uma visão panorâmica enorme, podia-se ver a quilômetros de distância.

- Lá vem... – disse o mais novo olhando para bem longe, muito longe, um tornado girando e girando em direção a cidade grande.

Rapidamente o vento mudou de calmo para brusco e forte, sem piedade nenhuma. Ambos olharam para o lado do mar. Com o coração batendo forte dentro do meu peito, virei o rosto.

Uma tromba d’agua se aproximava pelo lado do mar.

- Ah! – um grito feminino chegou aos meus ouvidos vindo de baixo.

Uma garotinha que segurava firme as mãos de sua mãe, corriam sem destino no sentido contrário de ambos os tornados.

Em segundos, um microonibus da cidade, descontrolado, era empurrado em direção a elas e outras pessoas. Rápido como o vento os acertou e os gritos de muitos pararam, e de outros aumentaram.

Minha cabeça baixou sem o meu consentimento e novamente voltei a chorar.

- Vamos embora… – falou o jovem mais velho me levanto para alto em direção a lua até sumirmos e a lua ser encoberta pelas nuvens negras do tornado.

Com certeza não é preciso dizer que houve muitas mortes injustas, de inocentes, crianças e idosos nesse dia. Mas quem era eu para julgar uma decisão que não cabia a mim tomar? Simplesmente fui levado para não ver o que iria acontecer, mesmo sabendo de todos os acontecimentos. Após milênios de tortura, as pessoas pagaram o preço por usar e abusar daquilo que lhes mantinham vivos... Não é por que não vi com meus olhos, que não senti todos aqueles sentimentos.

“Depois deste dia, não só para a cidade que eu morava, mas para todo o planeta que eu nasci e cresci até a minha idade atual, nada foi a mesma coisa... a humanidade que ficou para pagar por tudo que havia feito deveria ter aprendido a lição que havia agora, sido dada pela “mãe” de todos... Mas não... Não aprenderam... E então o Observador Solitário foi mandado para guiar o que sobrou neste mundo”.

CONTOS DE UM LOBO NA CIDADE VOLTA NA PRÓXIMA TEMPORADA!

Posted on 18:57 by Yuri Costa

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“Coisas”
Música: Damien Rice – 9 Crimes
Dedicado a: “Kuma Awasaki”

“Muitas ‘coisas’ são procuradas, muitas ‘coisas’ são desejadas, muitas ‘coisas’ são criadas... mas poucas ‘coisas’ que precisamos são alcançadas... sempre é assim....”

Naquela tarde nublada de vento fresco e forte, numa rua de terra de uma cidade não muito grande, era possível ver um filhote de urso caminhar entre os outros poucos animais que andavam tranquilamente para os seus compromissos. Ele andava um pouco mais devagar e no sentido contrário da maioria, então muitos abriam passagem para ele e alguns outros. Ele estava com uma blusa cor de vinho e de touca caída atrás, era possível ver longas orelhas caírem mais para trás da touca. 

Logo o vi entrando em uma rua menos movimentada. Caminhou um pouco, quase até o meio, passando pelas casas mais simples - quase todas tinham escadas para chegar a porta. Parou em frente a uma destas casas. Ele parecia triste. Eu ainda o via parado, da onde eu estava, no alto de um telhado de uma casa um pouco maior.

Saltei de um telhado para o outro para ficar atrás dele, mas ainda no alto percebi que ele estava olhando para uma casa com a porta fechada por madeira e fita para que ninguém entrasse, além de janelas também lacradas. Ele começou a subir a pequena escada e parou na frente da porta, tentando olhar pelas frechas deixadas. Eu via dentro e a casa estava vazia, mas com muitos moveis antigos, além de muitos objetos mágicos aparentemente comuns. Ouvi o barulho do garoto tentando abrir a porta com força e chorando, segurando na fechadura, sem sucesso. Meu coração bateu forte com cena.

- Preciso ajudar... – falei comigo mesmo e sumi dali.

O garoto continuava parado e com a cabeça encostada na porta, chorando. Até sentir uma mão humana e quente em seu ombro.

***

Eu estava dentro da casa e sentia a energia equilibrada do ambiente, principalmente de uma sala grande e bem decorada. Senti um objeto com uma energia mais forte me chamar. Estava coberto por um pano e deitado numa mesa de madeira redonda e pequena. Tirei a toalha sem tocar nela e virei o objeto de face para cima.

Um porta retrato.

Com a foto de um homem com uma certa idade já, e um garoto urso.

O garoto era bem jovem.

- Pai e filho... – comentei comigo mesmo, mas percebendo que não era sanguíneo. O senhor era muito branco e o corpo dele não tinha nada de parecido com o do garoto, moreno e de olhos brilhantes e castanhos.

***

- Você...? – disse o garoto para o espirito do homem que agora surgia à sua frente.

O espirito mexeu a cabeça confirmando.

- Sinto a sua falta... – disse ele com os olhos molhados e cheios d’agua.

Cheguei atrás da porta e olhei a cena por ali mesmo, segurando a foto em minhas mãos de lobo preto. Pude ver o homem acariciar a cabeça do filhote de urso que estava em pé tremendo um pouco, tentando acalma-lo, com sucesso.

Entregue para ele por favor” Me disse o homem, olhando para mim enquanto o garoto estava de olhos fechados sentindo o carinho de alguém que amava muito. Pude ver o homem dar um beijo no rosto do filhote e sorrir para ele, que tentava se despedir da melhor forma possível, sem sucesso. Assim que o homem sumiu ele se sentou nos degraus e começou a chorar novamente.

Suspirei. Fechei os olhos. Abri-os e eu estava na forma de um lobo animal com a foto em minha boca, sentado no chão de terra batida. Não demorou muito e o garoto me viu segurando a foto, os olhos tristes. “Um garoto tão bom sofrendo assim....” Pensei comigo e me levantei caminhando até ele e soltando a foto em seu colo.

Ele a olhou e ficou parado por alguns instantes. Pegou-a e a abraçou forte contra o peito e voltou a chorar de olhos fechados, agora mais aliviado. Quando ele abriu os olhos, eu não estava mais em sua frente. Ainda assim ele me percebeu no alto do telhado de uma casa e assim ficou me olhando, se levantou e saiu correndo por entre as ruas até eu não poder vê-lo mais.


Posted on 18:23 by Yuri Costa

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Carta a Um Anjo

Hey meu amigo, como está? Desejo eu que esteja bem assim como eu.

Lê: Sorrindo.

Estava eu pensando, neste belo dia ensolarado e dentro deste ônibus, no dia que estávamos juntos compondo e dançando aquela música naquela velha casa que, apesar de tudo, abriu as portas para você sair para mundo. 

Porque eu estava relembrando? Não sei ao certo. Penso que, por você ser o que você é dias assim me faz pensar em você, e desejar que esteja bem.

Lê: Sorrindo.

Agora, pensando em você, decidi escrever esta carta a você para que você não se esqueça de que tem um amigo, que gosta muito de você, apesar de sermos diferentes.

Outra coisa de que me lembro nestes momentos é que você pode viver feliz por ser o que é, enquanto eu desejo viver momentos felizes com pessoas e seres diferentes enquanto eu puder. Eu imagino que, viver com você ao teu lado um dia, ou dois, seria de valor inestimável à nossa amizade. Pena não podermos... Por sermos diferentes, você sabe.

Bem, não vou ocupar mais o seu tempo meu amigo, apesar queria lhe dizer que estou com saudades mesmo.

Lê: sorrisos e risos sozinhos.

Me deseje sorte para conseguir aquilo que tanto desejo tá?

Com certeza, nós iremos se ver em algum lugar.

Abraços de seu amigo.

Lobo.

Posted on 19:00 by Yuri Costa

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O Casamento – Parte 3 – Final

“Aquela bela casa, aquele belo convite, a belíssima senhora Marietta... E o futuro que não espera para chegar...”

Havia muitos campos, todos cheios de um gramado aparentemente alto e bem verde. Nessa época do ano a natureza está cheia de força e vida.

Tirando algumas poucas árvores que eram vistas em cima de algumas planícies, praticamente não havia árvore nenhuma. Fechei os olhos enquanto voava pelo céu de nuvens brancas e baixas, eu estava na altura das mesmas. Aquele cheiro de gramado tão forte e um pouco adocicado que subia me fazia sentir uma alegria interminável no meu peito. Mas logo que o cheiro mudou para algo mais salgado e o ar ficou frio, abri meus olhos preocupado e observei o local que eu sobrevoava agora com mais lentidão.

Parecia um pântano comum, e o céu acima de mim agora estava fechado e cinzento com ventos mais gélidos. De fato eu estava me aproximando da residência da velha senhora, mas o local havia mudado muito mesmo desde a última vez que eu a vi. Antigamente este local era uma floresta úmida, não um pântano em si, e apesar da umidade, o sol atravessava todos os locais para tocar a terra que manter até as menores plantas fortes. Agora apenas vejo algumas árvores troncudas em meio a essa água escura que segue para o lado em direção a algum lugar.

Não demorou muito e avistei o portal de entrada de carruagens logo a frente. Desci o voo até próximo do chão. Fechei um pouco asas enquanto as batia e voava por entre os vários portais de pedra polida e branca, que na verdade estavam tomados por ervas trepadeiras e daninhas nas bases. A própria grama estava bem mais alta, não deveria ser podada há meses.

Rapidamente atravessei-os e cheguei a um espaçoso local onde estava a fonte circular, com água esverdeada e parada, pois a própria fonte estava desligada e já havia ervas trepadeiras subindo pela base e vários galhos adentrando a água. Alcei voo e desci tranquilamente na porta do casarão que um dia já fora da mais polida brancura em suas paredes. Levantei a mão para tocar a porta e a mesma se abriu.

- Meu amigo... – disse o marido de dona Marietta, senhor Lorenzo – dando alguns passos firmes em minha direção e me dando um abraço caloroso.

- Olá... – tentei dizer seu nome mas não consegui devido ao abraço apertado. Instantes depois ele me soltou e pude observar a senhora logo atrás dele. Rapidamente ele deu passagem a ela.

- Senhor lobo... – Me cumprimentou ela como uma dama, pegando em seu vestido branco e muito bem decorado com algumas joias e se agachando sem muita dificuldade. – É um prazer ver que você chegou tão rápido – Terminou de dizer ela com um belo sorriso encantador no rosto enquanto saía de dentro do casarão com o braço dado ao seu marido.

- Ó boa tarde senhor Felipe – ouvi a voz de uma mulher que apareceu dentro da casa.

Era a mesma moça que estava com a sua filha, a daminha de honra, que me levou o convite.

- Boa tarde moças – respondi com clara educação e um sorriso de volta enquanto me virava para fora e via o casal andando vagarosamente os degraus da pequena escadaria até uma carruagem que apareceu atrás de mim sem que eu percebesse, e sem condutor.

Não consegui conter um sentimento de tristeza e felicidade que me encheu por dentro e fui ajudar o casal a caminhar tranquilamente até a entrada da carruagem.

- Vou sentir saudades de vocês dois... – acabei falando e limpando o rosto com a mão livre enquanto continuava a falar – Não os verei tão cedo de novo, não é?

A senhora Marietta deu um longe suspirar e sorriu de volta para mim, enquanto era abraçada pelo seu marido.

- Vamos nos encontrar de novo... Mas no seu mundo dessa vez, garoto-lobo – me respondeu ela com risinhos meigos naquele rosto já marcado pela idade e simpático ao mesmo tempo.

Tão logo ambos haviam entrado na carruagem e eu havia fechado a pequena porta de madeira, as grandes rodas de maneira do veículo começaram a mexer e a girar lentamente, fazendo-o se mover ao redor da fonte.

Prestes a completar a volta, quando o casal passou por mim, a daminha de honra correu de dentro da casa com um cesto simples cheio de pétalas e as jogou no ar no mesmo instante foram levadas para o alto pelo vento, e abaixo das rodas de madeira formou-se um caminho dourado parecido com uma estrada simples de pedra, por onde a carruagem começou a ganhar velocidade e subiu em direção ao céu com as pétalas em volta.

Eu que estava no chão, com o rosto molhado em lágrimas de felicidade, fui desperto de meus pensamentos quando a moça pôs um binóculo a minha frente.

- A senhora Marietta queria que você olhasse por esse binóculo depois que ela e seu marido partissem, meu jovem. – disse-me ela entregando a mim o objeto.

- Entendo... – respondi, pegando o objeto e o colocando em meus olhos. Olhei o jardim por ele, e logo a visão do jardim havia mudado para a visão de uma avenida que passava em frente com muitos carros e ônibus, além de pessoas que passavam nos cantos e arredores. O binóculo mostrava o futuro.

Movi a visão mais para perto de mim, e pude ver que o local iria ficar abandonado e mudaria muito mais drasticamente do que estava já.

Novamente mudei a visão para a fachada do casarão do casal e eu não via nada de casa, apenas céu cinza, e quando abaixei e girei um pouco, pude ver que o espaço da casa sumiria e daria lugar a apenas uma praça com alguns brinquedos um pouco mal cuidados.

Tirei o binóculo de meu rosto e novamente chorei de tristeza.

- Senhor lobo... Está tudo bem? O que vai acontecer com a casa da vovó e do vovô? Pra onde eles foram? – me perguntou a pequena daminha que logo recebeu uma repreensão de sua mãe.

Me agachei e limpei o rosto.

- Eu vi, que a casa deles vai mudar muito... Muito mesmo, e que aqui, vão ter coisas legais para crianças brincarem um dia – respondi a menina bagunçando o cabelo liso dele, que logo reclamou para que eu parasse enquanto voltava a falar. – E o vovô e a sua vovó foram para um lugar muito bonito, onde eles vão ficar muito felizes. – respondi com um sorriso no rosto.

Logo a menina entrou na casa correndo e falando com sua mãe.

- Mãe, vou me trocar pra gente ir embora, está bem?

- Está bem – respondeu a moça a sua filha que assim que sumiu de sua vista se virou para mim me olhando e perguntou: – É verdade isso?

- É sim – respondi a ela mas logo emendei – Apenas não contei como vai ficar esse lugar inteiro um dia... mas é a verdade sim, e os dois vão renascer algum dia no meu mundo... afinal, eles já estão aqui descansando faz muito tempo.

- Verdade... – respondeu a moça que lentamente fez um agradecimento se curvando e levantou, falando: – Obrigado por tudo, por cuidar deles, e conhecer eles, jovem... a gente vai se ver de novo?

- Um dia, com certeza vamos – respondi a ela com um sorriso enquanto sumia daquele mundo, despertando de mais uma noite, onde eu escolhi, sempre, cuidar de quem cuidou de mim.

***

Acordei num dia frio e lembrando de tudo o que houve a noite.

- Aquele Jhonathan... Abusado – sai da cama reclamando mas feliz por tudo o que houve.

Posted on 17:40 by Yuri Costa

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O Casamento - Parte 2

“Um Casamento depois de estar morto... De alguém que um dia você esteve lado a lado... Surpresas...”

Antes que pudesse reagir, eu já estava sentindo Jhonathan me derrubar no chão com uma força que ele não aparentava ter por seu corpo magro.

- O que você...? – perguntei para ele, já o vendo em cima de mim, com o corpo reto e os olhos fixos nos meus.

Logo ele foi para trás e segurou minhas pernas juntas, sacou de seu único bolso traseiro uma faixa azul, aparentemente grossa, mas leve, e começou a amarrar minhas pernas com força e velocidade. Não demorou para minha mente começar a pensar coisas subversivas da minha situação. Eu ali, sendo amarrado e um espirito de mulher com a sua filha me olhando sem saber o que fazem por mim.

- Jhonatan! – chamei em voz alto o suficiente para que ele olhasse em meus olhos e os vi, mudarem suavemente do castanho avermelhado, para o castanho escuro.

- Felipe...? – disse ele parando de me amarrar.

Logo me deitei e tirei a faixa de minhas pernas e da mão dele.

- Felipe me desculpe... Eu não percebi... – começou a falar constrangido.

Coloquei minha mão em minha testa de forma constrangedora. Com certeza ele é forte e tem habilidades formidáveis, mas controle lhe faltava. Fechei os olhos. imaginando o motivo da situação ter acontecido e abri os olhos tentando não pensar mais nisso.

- Jhonathan... – chamei ele, interrompendo-o de suas desculpas que eu não estava ouvindo devido a profundidade de meus pensamentos - Pode me deixar sozinho por favor?

- Mas... – relutou ele olhando meus olhos.

Respondi com um suspirar e um piscar de olhos lentos.

- Está bem... Desculpe... – Terminou ele e saio pelo mesmo lugar que havia entrado.

Aguardei um pouco mais após a saída dele e me virei para as duas atrás de mim com o rosto claramente chateado.

- Me desculpem... espero que essa situação não as tenham feito mal.... – me inclinei para baixo como de costume quando me desculpava.

- Está tudo bem – respondeu a mulher abrindo um sorriso gentil enquanto a sua filha voltava a soprar as flores no canteiro.

-E o que as moças fazem aqui? – perguntei após me levantar e ficar na posição normal, notando que o céu cinza começava a escurecer um pouco mais, mas a chuva ainda continuava fina.

- Na verdade... – começou a falar a moça – Eu vim trazer a você mesmo um convite. A minha filha veio atrás... – respondeu a mulher com um meio sorriso e logo o convite se fez visível na palma da mão morena dela.

Um simples envelope branco, com a parte de trás virada para cima, com o brasão da família dela carimbado em preto e vermelho. O brasão era bonito, reconheci na hora aquele símbolo de duas flores se entrelaçando e ervas crescentes ao lado e se tocando acima das flores. Peguei o envelope e o virei. A frente apenas a quem era endereçado, a mim, e para o que era, o casamento.

Apesar do carimbo, o meu nome, o motivo do convite e o próprio nome da noiva estavam escritos à mão, a letra como sempre delicada e exuberante. A assinatura, então, um exemplo de arte.

- Marietta... – falei em voz alta.

- Sim! – exclamou a menina sorrindo que logo falou mais – A vovó vai casar com vovô e pediu para você ir ao casamento! Ela gostou da sua companhia! – falou ela bem entusiasmada.

- Verdade – completou a moça sorrindo.

Não consegui conter um sorriso de alegria e emoção que se fez bem aparente em meu rosto, e tão logo minhas asas se abriram sem que eu conseguisse impedi-las também, me deixando sem graça na frente de ambas e meio avermelhado.

- Nossa... – abriu um pouco mais os olhos e moça falando ao mesmo tempo. – Não sabíamos que você tinha asas de anjo jovem, e que belas asas – concluiu ela.

- Poucos sabem... – respondi muito sem jeito e, sentindo o meu coração bater forte no peito, não me aguentei. Agachei os joelhos e, num salto, bati as asas para cima, indo embora para o céu, me virando para olhar para baixo e vendo apenas as duas sumindo tranquilamente, as mãos da menina balançando para os lados em sinal de até logo.

Rapidamente ouvi um trovão mais longe e percebi que a chuva não demoraria a se aproximar. Bati as asas novamente em direção contrária me afastando logo dela.

Enquanto estava no céu, olhei para baixo e rapidamente não via mais vilas, nem estradas, nem castelos, nem Jhonathan. Apenas as árvores e florestas e poucas aberturas de campos. Meus pensamentos por um momento me perguntaram o motivo dele ter feito aquilo mais cedo, e eu tranquilamente os respondi.

“Seja lá o motivo pelo qual ele fez aquilo... Não me importa mais...”

CONTINUA NA PARTE 3

Posted on 18:48 by Yuri Costa

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Capítulo 10 (final de temporada)


Alguns meses após o episódio em que protagonizei uma cena constrangedora com Oscar propositalmente, nós iniciamos um relacionamento. Nos primeiros sessenta dias eu tinha interesse apenas em saber qual era sua verdadeira ligação com papai, mas, no dia a dia, e com todos os encontros que tivemos, Oscar se mostrou um homem atencioso e carinhoso. Isso me deixou desconcertada, e fez com que eu deixasse um pouco de lado essa história de investigação. Depois que o relacionamento se estabilizou, eu procurei ajuda e iniciei a busca por informações sobre Oscar, papai e aproveitei para descobrir a razão que de fato levou a morte de mamãe.

Apesar do charme e do carinho excepcional que Oscar tecia a fim de me encantar, vez ou outra, Nicholas roubava meus pensamentos. Foram dois anos. Eu havia saído de seu apartamento em Abril e veja só? Já estamos em Dezembro. Não deu tempo de esquecer os anos que passamos juntos. Pelo menos eu ainda não esqueci o que passou. Eu não quero esquecer e gostaria muito que ele também não tivesse esquecido. Ainda me sinto presa a ele. Oscar tem sido perfeito, mas Nicholas se tornou insubstituível.

Ainda penso em como ele deve estar, em onde ele deve estar. Estive em seu apartamento um mês depois de minha partida, para recolher as coisas que esqueci e ele não estava mais lá, soube pelo porteiro que ele havia se mudado. Aquilo me doeu de um jeito louco. Quando soube da notícia, liguei pelo menos umas cinquenta vezes, mas ele não atendia mais minhas ligações. Eu definitivamente havia perdido o homem da minha vida e desde então eu tentei esquecê-lo, mas só tentei.

Era a época de o Natal chegar, a cidade estava fria e movimentada. A nostalgia estava no ar, seria o meu primeiro natal sem o Nicholas e eu cruzava os dedos todos os dias de manhã para que por alguma razão ele resolvesse visitar a cidade. Eu havia dado uma pausa nas investigações, mas Dilan e seus amigos que me ajudavam nessa empreitada, prometeram continuar procurando mais informações. Dilan trabalhava para uma rede de investigadores estritamente secreta e diretamente da Austrália, como havia comentado, ele estava de passagem em Truly. Por essas e outras ele quase não visitava Dona Rose, e para convencê-la de que não estava perdido no mundo, fez um cursinho de culinária. Sua namorada também pertencia à rede de investigações, na verdade eles se conheceram lá.

Quando procurei a ajuda de Dilan, tanto eu quanto ele sabíamos dos riscos, mas por sorte ele era da área e pode me ajudar. Conforme o tempo passou, pude ter certeza que papai não era nenhum santo e Oscar menos ainda. Talvez por saber que não valia nada, eu não estivesse cedendo aos seus carinhos e me recordando constantemente de Nicholas, mas eu não podia me afastar. Nosso relacionamento estava sendo imprescindível para as investigações. Oscar estava se distraindo bastante comigo e deixando os assaltos que estava comandando um pouquinho de lado. Os assaltos eram tudo o que eu sabia, por enquanto.

A noite de Natal enfim chegou, Oscar e eu havíamos decidido comemorar na cidade. O café de Dona Rose estava completamente decorado, Dilan e sua namorada estavam presentes, a vizinhança inteira estava. Havia uma enorme árvore e em seu pé, bom, dezenas de presentes. Tudo estava completamente perfeito, na medida do possível.

O café estava repleto de crianças, elas corriam sem parar. Oscar se animou quando nos deparamos com um bebê de cinco meses. Ele ficou apaixonado. Vindo de alguém agridoce, não me surpreendi. Faltavam alguns minutos para dar meia noite, então me dirigi ao balcão para pegar duas taças de vinho. Elas estavam organizadas para que nenhum funcionário precisasse se preocupar. Sentei-me em um dos banquinhos e fiquei me lembrando dos momentos que tive naquele lugar. As conversas com papai e Alfred, o primeiro café da manhã que tomei sozinha quando briguei com Nicholas... Todas essas lembranças estavam doendo e eu não entendia por que.

Meia noite.

Virei-me para o lado a procura de Oscar, o mesmo ainda se divertia com o bebê. Peguei as taças e aproximei-me de seu corpo. Brindei-o com um beijo em sua nuca.

− Feliz Natal, meu bem.



Oscar se arrepiou e logo devolveu o bebê, virou em minha direção e segurando-me pela cintura, desejou-me tudo que há de melhor no mundo seguido de um beijo apaixonado. A noite estava perfeita, tudo corria bem e eu não podia desejar outra coisa.

Depois do beijo, nos abraçamos e quando menos esperava, Nicholas entrou pela porta principal. Ele estava lindo. E eu? Bom, eu estava perdida, descompassada e ainda loucamente apaixonada.



Nos vemos na 3ª Temporada!

Posted on 15:30 by Yuri Costa

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O Casamento – Parte 1

“Os meus momentos raros de distração e tranquilidade estão aumentando... Mas mesmo assim, o passado não deixa de ser lembrado”

- Ei! – ouvi alguém me chamar de maneira escandalosa.

- O que foi?! – respondi do mesmo jeito, abrindo meus olhos normais de pessoa e olhando onde eu estava naquela noite de primavera.

Eu estava em uma escola grande, mais precisamente em um pátio de chão de pedra e altos muros com ladrilhos que contavam histórias.

- Vai ficar parado ai por quanto tempo Felipe? – me perguntou um outro jovem. Deveria ter a mesma idade que a minha, vinte e tantos anos, porém mais branco, de cabelos curtos e loiros, corpo grande e físico adequado.

- Ah! – respondi eu já sorrindo e mostrando os caninos afiados que não brilharam apenas por que o céu estava muito encoberto e cinza – Por quanto tempo eu achar que devo olhar, Arnold!

Me aproximei e os outros jovens estavam rindo do que eu havia falado. Todos estavam bem tranquilos, e o lugar não me parecia estranho, mas familiar. Parecia o reino de Wanttz, só que depois de anos e anos. Agora os castelos estavam mais simples e com algumas paredes rachadas, mas o local dos ladrilhos próximo a mim estava impecável. Comecei a rir de uma piada contada por um dos garotos e notei a roupa que todos usavam: uniformes azuis e brancos, como se fossem marinheiros. Entre eles havia o Jhonathan, que estava sem camisa, com o seu corpo muito bem torneado e tão branco quanto o de Arnold à mostra para todos verem.

- Que há, Felipe? – Perguntou ele quando reparou que eu o observava.

- Nada – menti para ele.

- Será? – me perguntou ele, se levantando e cruzando os braços com um sorriso de alguém que sabia quando admiravam ele. Jhonathan era um cara bem sociável pelo que eu sabia e via, vivia cercado de pessoas, fossem homens ou mulheres, mas geralmente homens, e todos sempre de corpo bem trabalhado.

- O que você quer? – me perguntou enquanto me olhava fixo nos olhos.

- Nada – Respondi mentindo novamente.

Nesse momento senti o meu coração bater forte e ele pegou em minha mão. Notei que eu estava usando a minha convencional mochila, e também bermuda e uma regata branca, além de descalço. Ele levantou a minha mão e foi levando em direção ao seu peito. Rapidamente tratei de me soltar dele e o empurrei para trás, o derrubando em cima do banco de pedra que havia encostado ao muro de pedra com ladrilhos e sai correndo em direção a um portão grande ao sul.

- Felipe! – Berrou ele – Espera! – Falou se levantando, mas já tarde, pois eu estava bem a frente dele. Ele tentou me seguir enquanto podia.

Corri rápido, muito rápido pelas passagens da faculdade. Era tudo realmente grande, além de escuro. Não demorou para que eu conseguisse ouvir o barulho de alguns pingos de chuva. Quando parei de correr e prestei mais atenção aonde eu havia chegado, percebi que estava em outro pátio, bem menor que o anterior, mas muito melhor conservado, com ladrilhos no chão da mesma cor e tipo dos que haviam no grande anterior. E, diferente do outro, que tinha apenas pedras e mais pedras e bancos de pedra, neste havia alguns pequenos jardins com flores e plantas que mexiam quando alguns dos pingos as acertava. Tive uma breve visão aérea do local e percebi que as plantas e flores estavam dispostas de uma maneira bem singular.
Havia uma parte maior que formava um canteiro num canto e se estendia até a beira da entrada, mas este canteiro possuía cantos pontudos que se estendiam quase até o centro e na ponta de cada um dos três cantos, haviam um pequeno espaço arredondado sem ladrilhos onde havia apenas uma espécie de flor em cada uma.

- Pois não? – chamou uma moça morena de longos e lisos cabelos de um tom de marrom escuro, ela estava com um vestido longo, de um tom azul bebê, que parava logo depois das canelas, mas deixava à mostra o seu salto simples.

- O moço gosta de flores? – Perguntou uma menininha também morena, de cabelos longos, mas mais encaracolados. Ela estava com uma blusinha cujas pontas tinha uma renda simples feita a mão, um lacinho no pescoço fino e branco, e uma saia que cobria toda a sua perna, mas não escondia a sapatilha.

Fiquei parado por um momento observando as duas e notei que os pingos, que iam se tornando mais constantes, não as molhavam, sequer as tocavam.

- Sim, amo flores – finalmente respondi, piscando e respirando mais calmamente enquanto caminhava para mais perto delas.

Logo eu estava conversando com as duas, sentado no chão, no ladrilho enquanto a garotinha me mostrava as flores de várias cores e perfumes. Não demorou muito e notei algumas conversas paralelas e olhos que olhavam para mim do corredor interno.

Ele está falando sozinho?” – Murmurou uma garota que passou com sua amiga colega, ambas vestidas com uma camisa também azul e branca, como marinheiras mas com pastas nas mãos.

Deve ser um daqueles estranhos” – respondeu a colega diminuindo os passos para olhar para o que acontecia comigo ali.

Uma pena não é? ... Tão bonitinho...” – comentou a garota com uma pasta na mão.

De fato não é? ... Um desperdício...” – Respondeu ao comentário.

- Você não se importa com essas pessoas falando de você pelas suas costas jovem? – me perguntou a moça enquanto eu sorria e falava de flores com a garotinha.

- Não, senhora – respondi e logo emendei demonstrando estar bem e normal para a criança – Não tenho por que me importar com pessoas como elas.

- Felipe?! – chamou alto Jhonathan parado e suado, me olhando e respirando ofegante da entrada.


Assim que ouvi, me tornei sério. De joelhos, me virei para ele, o encarando de maneira séria enquanto o via se aproximar de mim, passo a passo.

Posted on 17:52 by Yuri Costa

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Capítulo 9 (penúltimo capítulo)



Tudo indicava que Fillipe Burton Cartney, o pai de Alexis, era um alvo difícil de ser eliminado pelo próprio Oscar Fragoso, meu maior inimigo. A questão toda era, porque Oscar estava armando para o pai da Alexis? O que ele queria com esses assaltos? Tínhamos em mente essa possibilidade como fator principal de que poderia nos levar ao caminho certo. Ao caminho que nos daria um belo encontro com o Oscar Fragoso e então, eu poderia fazer o que eu vim proposto para tal. Matá-lo.

- Todos estão por dentro do que está acontecendo, certo? – perguntou Rony de Paula para todos os agentes presentes.

Robbie na verdade, era o único dentre os agentes que não estava presente, pois estava infiltrado no governo para conseguir informações sobre Oscar Fragoso e nos deixar sempre por dentro das ações dele. Parecia tudo muito fácil, até porque tendo um agente infiltrado no governo de Oscar, era como se tivéssemos um olho e um ouvido na vida dele e isso era de suma importância.

Passaram-se dois dias em que só analisamos questões sobre Oscar e sobre seu possível planejamento, até que finalmente foi chegada a hora de entrarmos de cabeça em uma nova missão.

- Hoje será o dia de ganharmos um corpo nessa investigação. – comentou Rony de Paula.

- E então, qual é o plano? – perguntou Mia.



- O plano é o seguinte... – disse Rony nos olhando e deixando um tempo em total silêncio. Ficamos ali encarando ele por um tempo que parecia ter sido de um minuto no mínimo, porém, deveríamos tê-lo encarado por no máximo dez segundos. Ficamos fitando seu olhar e aumentando a nossa tensão pela curiosidade de saber qual era o plano, até que então, Rony de Paula nos disse:

- O plano é com vocês.

- Como assim “com vocês”? – perguntei.

- Vocês devem ir até o círculo mais próximo onde Oscar costuma passar mais tempo de sua vida e então, desenvolverem sozinhos planos para conseguir informações concretas sobre quem ele é e como ele age. Temos que ter provas em mãos já que iremos lutar de certa forma contra o nosso próprio governo.

- Você está pedindo para que, simplesmente, nós todos vamos para onde quer que seja esse lugar ou a proximidade dele, em qualquer circunstância, sem nenhum plano de ação ou de recuo? – indagou Lucas.

- Sim... – respondeu Rony.



- O que você está achando que somos? – questionou Lucas em um tom mais alto.

- Primeiro eu sou o seu líder, segundo eu sou a voz maior aqui, então pode abaixando esse tom para falar comigo.

Lucas se mostrou tão furioso e acabou ficando impaciente. Pude perceber que ele mordeu sua boca disfarçadamente para não dizer ou fazer nenhuma outra bobagem.



- Rony... Tem certeza de que essa ideia pode funcionar? – perguntou Jasmine.

- Não. Eu não tenho ideia e nem preciso. São vocês que devem ter e criar ideias. São vocês que estarão na linha de fogo, não eu. Eu só preciso de informações para ajuda-los a pegar o nosso criminoso em especial e depois disso podemos voltar à ativa juntamente com o governo.

- Tem mudado assim tão de repente, Rony? – questionou Lucas, novamente.

Rony olhou dentro dos olhos de Lucas e tornou a falar.

- Vocês irão em grupo. Todos juntos, porém, depois de dois dias trabalhando em equipe, vocês terão que se separar. Ficará então uma dupla e um trio, conforme os números de agentes nessa missão. Analisando as habilidades de cada um, aconselho que a dupla formada seja de Pedro e Jasmine, e o trio seja composto por Lucas, Mia e Nicholas. Porém, cabe a vocês decidirem. Isso é só um conselho.

- E os armamentos? – perguntou Jasmine.

- Creio que cada um sabe onde fica. Vocês tem toda liberdade para pegarem o que quiserem. Contanto que não usem em desperdício. Estamos por conta própria, tudo é mais difícil quando estamos sozinhos e esse é o nosso caso agora.

O plano foi separado em grupo como deu pra entender, mas o local onde ficaríamos, nós não havíamos decidido com o Rony por perto. Quando saímos do nosso esconderijo conversamos sobre a nossa missão que parecia mais um suicídio, só que antes, esperamos o Lucas por pra fora toda a sua raiva, xingando o Rony de todo o tipo de palavrão que alguém possa imaginar. Depois de ele ter extravasado e se livrado de uma boa parte de sua raiva, nós começamos definitivamente a colocar estruturas no plano para que o mesmo desse certo.

- Oscar não mora longe do seu local de trabalho e esse pode ser o maior o perigo. – comentei.

- Como assim esse pode ser o maior perigo? Ter ele por perto não nos facilita as coisas? – perguntou Jasmine.



- Bem - comecei a esclarecer –, tê-lo por perto com certeza é muito bom, mas, com isso, temos os homens que trabalham para o Oscar na cola dele e isso sim é um enorme problema.

Parecia que pensar nessas coisas pra mim era muito mais fácil, talvez pelo modo de como eu agia antes de tudo isso, de como eu me infiltrava para eliminar um alvo qualquer e de como eu saia sem deixar rastro. Pensei também nos cuidados que eu tomava para não falhar em nenhuma missão dada a mim. Eles não pareciam pensar como eu, apenas ligavam fatos, mas não se imaginavam em cena em nenhuma ocasião, não presumiam algum imprevisto ou algum erro que eles mesmo poderiam cometer. Isso não era uma missão para todos e sim para alguém como eu. Eles não poderiam participar disso, é do Oscar que estamos falando e isso não pode dar errado. A primeira oportunidade que tivermos, temos que agarrar com unhas e dentes sem nem mesmo pensar duas vezes. É matar o Oscar ou matar o Oscar.

Passaram-se algumas horas até que finalmente chegamos no centro da cidade e lá resolvemos onde íamos ficar.

- Pois bem, se formos olhar melhor para o plano, o certo seria ficarmos todos totalmente separados, mas isso continuaria a ser um problema, já que estamos lidando com mais de uma pessoa. – comentou Lucas.

- Então o que você sugere Nick? – perguntou Mia olhando diretamente nos meus olhos.

- O que eu sugiro? – perguntei e logo em seguida, depois de ter visto que não havia mais jeito, eu falei. – Não temos que rodear o Oscar, temos que segui-lo em linha reta, ou seja, um grupo próximo dele e o outro distante o bastante para ver, aonde o Oscar pode estar indo. A cidade Central toda é o lar do Oscar. Qualquer lugar é colocado em sua posse, ele é um poder fenomenal por aqui e todos os cidadãos sabem disso. Temos apenas que seguir a sua trajetória, pois só vamos conseguir pega-lo, quando ele deixar que o peguemos.

- Ou seja, precisamos de uma brecha. – completou Lucas.

- Isso. Precisamos de uma brecha. Uma brecha que só mesmo o Oscar pode nos dar. – finalizei.



Decidimos então que Pedro e Jasmine ficariam em algum lugar mais próximo do Oscar, pois dois espiões poderiam chamar menos atenção, ainda mais sendo um homem e uma mulher, que poderiam fazer de conta que são um casal. Sobrou para Lucas, Mia e eu ficarmos com a parte distante, checando as rotas de saída do Oscar e esperando uma brecha dada por ele mesmo para o pegarmos. Foi assim durante dois meses. Apenas espionando, procurando saber o que Oscar está de fato, tramando para cima do pai da Alexis e procurando informações sobre alguma pessoa que possa estar fazendo esse jogo sujo, juntamente com ele.

- E então, vamos tomar café? – perguntou Mia.

- Vamos sim. – respondi deixando o notebook de lado e me levantando para ir tomar café com ela.

Ficamos em um café-bar bem próximo de onde estávamos hospedados. Lucas ainda dormia, pois havia ficado de olho nas notificações que Pedro e Jasmine mandava para nós, por e-mail, e então ele tirou o dia para ficar descansando. Mia era uma mulher de muitas feições e de uma beleza deslumbrante. Ao entrarmos no café-bar todos os homens, sem exceção, pararam para dar uma boa olhada para ela.

- Um café puro e um sanduíche natural, por favor. – disse Mia, fazendo o pedido dela a garçonete.

- Uma mulher tão bonita e elegante como você, fazendo um pedido tão simples pro café da manhã? – perguntei sorrindo.

- Pra você ver - disse com a sua sobrancelha direita arqueada –, como os homens são incapazes de nos entender. – disse e sorriu de lado.

- Hum. Quero um café puro e dois mistos quente, por favor. – falei enquanto a garçonete anotava o meu pedido.

- Ué. Um homem como você, pedindo misto quente? – perguntou Mia em um tom de ironia.

- Pra você ver, como as mulheres só pensam que entendem os homens. – respondi e automaticamente, o sorriso dela que estava de lado, se abriu por completo e me mostrou algo que eu realmente admiro em um rosto feminino.

- Você tem um lindo sorriso. – comentei.

- Você tem um olhar muito sedutor. – comentou Mia.

- Está insinuando que eu te seduzi? – perguntei com um sorriso no rosto.

Ela olhou para mim e arqueou as duas sobrancelhas, fazendo um careta que parecia me perguntar, “Será?”.

Alguns minutos se passaram, nos deliciamos com o nosso café da manhã, mas antes mesmo de acabar, algo inesperado aconteceu.

PAH!

- ISSO É UM ASSALTO! – berrou o ladrão. – TODO MUNDO COM AS MÃOS PARA O ALTO!

Entraram três homens mascarados aos berros no café-bar que estávamos. Deveria ser umas dez horas da manhã e o local já estava com uma boa clientela. No momento eu me perguntei o que bandidos queriam assaltando um café-bar pela manhã. O primeiro assaltante que chegou anunciando que era um assalto era alto e forte. Percebia isso por causa da regata que ele estava usando. O segundo assaltante, era magro e parecia ter usado drogas a poucos instantes, percebia isso pelos seus movimentos. Ele entrou apontando uma pistola na cabeça dos clientes que ali estavam, para causar pânico neles. O terceiro assaltante entrou e fez o mesmo, mas quando o primeiro assaltante mandou o caixa a passar todo o dinheiro que tinha ali, ele foi para a porta, ficar vigiando.

- Esses gostam de trabalhar cedo. – sussurrei para Mia e ela soltou um risinho. O segundo assaltando ouviu.

- Você tá rindo do que, dona? – perguntou ele se aproximando.

- Desculpa. – disse Mia.

- Você não tem medo de morrer não? Sua vadia!

- Ela já pediu desculpas. – falei.

- E você? É o Clark Kent por acaso? – perguntou.

- Pelo menos você não é como a maioria que só sabe falar Super Homem, você já... – ele me puxou pela gola da camisa e me levantou do meu assento. Naquele mesmo instante meu sangue ferveu, mas tentei controlar a situação.

- Calma ai amigo, só tentei dizer que você é inteligente. – falei calmamente.

- Eu sou sim muito inteligente! – disse ele se movimentando para um lado e para o outro. – ANDA LOGO COM ISSO AI, MERDA! – berrou para o primeiro assaltante.

- FICA CALMINHO AI! – berrou o primeiro assaltante de volta.

Olhei para a Mia e indiquei que eu ia pegar a arma do segundo assaltante, mas logo ela fez que não e me indicou a câmera de segurança que havia no local. No mesmo instante eu virei para o outro lado e me sentei novamente.

Droga, pensei. Se a câmera me pegar, o Oscar pode saber que eu estou por perto.

- TÁ TUDO CERTO, JÁ ESTAMOS INDO EMBORA, SÓ VÃO PASSANDO A GRANA PRA MIM O MAIS RÁPIDO POSSÍVEL E NINGUÉM SAIRA MACHUCADO DAQUI! – berrou o primeiro assaltante para todos que ali estavam.

Ele foi recolhendo todo o dinheiro, enquanto o segundo assaltante ficava com a arma apontando para a cabeça de cada um que estava ali e o terceiro assaltante continuava vigiando a porta.

Tirei da carteira uma nota de cem reais e dei a ele, mas pelo visto ele não se contentou com aquilo e pediu o meu celular e relógio. Tirei o relógio do pulso e entreguei a ele. Peguei o meu celular e vi que eu ainda não havia trocado a foto do meu papel de parede. Ainda era eu abraçando a Alexis por trás em uma ponte sobre um lago que costumávamos ir, para fazermos o piquenique que a Alexis tanto amava.

- Não vai dar pra você levar o celular não. – comentei.

- Nicholas? – perguntou Mia enquanto me chutava por debaixo da mesa.

- Como é que é? – perguntou o primeiro assaltante.

- Não dá, cara, sinto muito. – falei.

- Você tá tirando uma com a minha cara né? – perguntou o primeiro assaltante. – PASSA ESSA MERDA PRA CÁ! – berrou e apontou a arma na minha cabeça, na mesma hora eu imobilizei a mão que ele segurava o gatilho e a girei fazendo com que ele soltasse ela na mesa.

Quando ele soltou a arma eu o chutei na barriga, na direção do segundo assaltante e peguei a arma que estava na mesa e apontei para o segundo assaltante. O terceiro assaltante virou imediatamente para a minha direção, puxando o gatilho da doze que ele segurava. Quando ele ergueu o braço direito para mirar em mim, eu atirei no ombro direito dele e depois no joelho e voltei a apontar para o segundo assaltante.

- Pegue as suas coisas e saia daqui. – falei.

- Vem cá, sua vagabunda! – disse o segundo assaltante puxando uma cliente do café-bar e a abraçando por trás, apontando a arma na cabeça dela. – E agora? Hein! Vamos lá Clark Kent!

- Você é realmente inteligente. – falei.

O terceiro assaltante realmente iria atirar em mim, mas o segundo não faria isso. Entrou naquele local apresentando uma movimentação muito ativa, ou seja, usou algum remédio para dar a ele a adrenalina necessária para encarar esse desafio, sem contar que gritava muito com os outros, sem motivo nenhum, apenas tentando intimida-los, para não perceberem o quanto ele estava nervoso e com medo. E um detalhe interessante, foi o que eu percebi de última hora.

BANG!

- Você esqueceu de destravar a arma, Lex Luthor. – comentei depois de ter dado um tiro no pé dele e depois um na coxa.

Só me restava atirar no primeiro assaltante, mas as pessoas já estavam desesperadas e a polícia chegaria a qualquer momento. O primeiro assaltante pegou as coisas deles e foi embora, deixando os outros dois sangrando no chão.

Todos começaram a correr dali e Mia e eu fizemos o mesmo.

- Que inteligente você! – disse Mia. – Agora estamos correndo sérios riscos de sermos vistos e a missão dar errado.

- Ele apontou uma arma na minha cabeça e eu já estava estressado. Fui treinado para eliminar um alvo, não para convencer ele a não fazer o que é errado. – respondi.

Mia parou e puxou o meu braço para que eu parasse também. Estávamos quase no nosso hotel quando ela fez isso. Parou e me encarou, olhando nos meus olhos.

- Eu me preocupei com você - e me deu um tapa no rosto. – Seu idiota!

- Não acredito que você fez isso...

- Me desculpa. – disse ela.

- Somos treinados para lidar com pessoas mil vezes piores que aqueles assaltantes, acha mesmo que eu não sabia o que estava fazendo? – perguntei acariciando o meu rosto.

Mia alisou a minha mão que acariciava o meu rosto e depois a apertou se aproximando de mim e me beijando.

- O que foi isso? – perguntei.



- Vocês realmente não entendem uma mulher. – disse enquanto voltava a me beijar.

Posted on 18:20 by Yuri Costa

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Tempo de uma Amizade – Parte 2 – Final

“Uma amizade de longa data... altas informações, companheirismo, momentos de ajuda e tristezas apaziguadas... Tudo ficou para trás.”

Minha mão tremia dentro do ônibus muito mais que o próprio que chacoalhava muito normalmente enquanto me levava pela rua agora estreita após virar na cursa e sair da avenida.

- Anjo - falei comigo mesmo, lendo o remetente da mensagem eletrônica no meu celular. Meu coração pedia arduamente para que eu não abrisse aquela mensagem, por que, ao abrir, eu automaticamente iria lê-la e meu coração dizia que isso iria doer.

Nesse momento, meu caro leitor, eu realmente paro para pensar no por que de eu ser assim. Sempre sei o que vai acontecer, e aceito os fatos que vierem por que são as consequências da minha escolha, e, eu sendo o lobo/homem que sou, tenho o dever de aceitar a consequência de meus atos.

Cliquei na palavra “abrir” na tela e a mensagem se fez mostrar para mim.

“Oi, Lobo, tudo bem com você?” Estava escrito. Meu coração se acalmou, mas um frio subiu pela minhas costas enquanto eu escrevia a mensagem de resposta.

“Oi Anjo, está tudo bem sim, tirando o calor dessa cidade que hoje em especifico está diferente, muito, mas não na temperatura... Como se o lado bom do calor em si fugisse e o que ficasse fosse apenas o lado ruim dele aqui.... Mas e você? Como está? Milagre você enviando uma mensagem de texto, algum motivo tem”.

Cliquei em enviar e meu coração bateu forte novamente. Num piscar de olhos a mensagem resposta havia chegado. Não tive tempo nem mesmo de sentir o ônibus andar pela rua. Novamente apertei a palavra “abrir” e a mensagem apareceu para mim e logo comecei a lê-la.

“Eu estou bem... Mas já tive dias bem melhores lobo...É incrível como este mundo está uma merda.... Não suporto mais ficar aqui e pedi ao meu pai que me deixasse ir embora deste mundo... Não quero mais ficar nele... Não quero aprender mais sobre ele, muito menos quero cuidar dele... Nesta última quase obrigação que querem me dar, eu recomendei você para esse serviço... Com certeza você faria ou fará ele muito melhor que eu... Eu quero apenas ir embora daqui e levar a minha mãe humana e talvez meus irmãos humanos comigo... Estou esperando um mensageiro trazer a resposta agora, enquanto falo com você.”

Senti meu coração bater muito forte já enquanto lia a mensagem, após terminar então. Comecei a soar dentro do ônibus enquanto me batia uma vontade de chorar. Muitos sentimentos e emoções transbordavam por mim e eu não entendia o porquê. Eu apenas voltava a escrever a mensagem de resposta a ele, e quase que inconsciente, da maneira mais sincera possível.

“Eu te entendo... Esse mundo está realmente uma droga... Somos obrigado a viver uma vida que não queremos... Fazer o que não desejamos só para ter uma moeda de troca supervalorizada, para assim, talvez, podermos ter uma vida mais ‘humana’... Entre outros problemas... De fato isso aqui precisa de muitos acertos... Mas você falou de mensageiro? Veio um aqui agora pouco me entregar uma espécie de pedra, feita de energia que pode realizar desejos... Ele disse que veio entregar para mim por que eu saberia bem como usa-la... Eu não entendi direito tudo isso”.

Mandei a minha resposta. Eu realmente sabia que essa resposta não seria a melhor, mas é a mais sincera possível.

Nesse momento, eu pude ter um breve momento para me sentir, e sentir tudo ao meu redor. Mesmo sendo um ônibus, eu sentia frio e chuva. Iria chover neste dia, agora a tarde ou durante a noite. Mas iria chover, eu estava certo disso.

A resposta veio cerca de dois minutos depois da minha. Ele leu rápido, e escreveu mais rápido ainda. Logo abri e comecei a ler novamente.

“Como assim ele foi até ai?! Por que ele te entregou?! Como eles puderam fazer isso comigo... Então eles querem me desafiar?! Só pode ser isso! Só pode…”.

Nesse momento eu senti as lágrimas dele em mim mesmo. Tive de fazer muito esforço para não chorar junto com ele e voltei a ler.

“Eles não podiam fazer isso comigo... Ele sabem o que eu passo aqui! Eles sabem que quero voltar para junto do meu pai.... Eles me temem com medo que eu vire um novo você-sabe-quem e insistem em me manter nesse mundo e me dar funções e trabalhos! Eu não quero mais... Mas pelo menos a pedra está com você... Posso ir busca-la ou você pode trazê-la até mim lobo...?”.

Terminei de ler.

Apertei o meu celular com força enquanto respirava fundo, deixando escapar uma lágrima pelo meu rosto e começava a escrever novamente.

“Não posso... Por que eu a quebrei em partes e... Já distribuí algumas.... Anjo…”.

E enviei.

Fui curto e grosso, mas tentei demonstrar que não estava nem um pouco feliz com a situação. A resposta dele veio mais rápida que a anterior.

“Por que você fez isso?! Você não percebeu todo o potencial que isso tinha?! Você sabe o quão difícil é conseguir uma dessas?! Ou o preço que isso custa?! Maldito mensageiro.... Vou me certificar que ele pague por isso... E seja lá quem tenha falado para entregar para você também! ... Todos querem me ver assim.... Nervoso, com ódio. Pois que seja! Vou atrás de cada pedaço que você fez, vou junta-las e vou realizar o meu desejo de ir embora daqui! E ainda diziam que tinham medo de quem eu poderia me tornar você-sabe-quem... Todos eles... E você lobo.... Me entregue o que ainda tem.”.

Rapidamente comecei a escrever a minha resposta para ele. Eu não queria ter lido isso. Eu não iria imaginar uma coisa dessas na vida.

“Você está me ameaçando Anjo? Só por que você é uma protegido do pai? Você realmente acha que eu vou obedecer a uma ordem sua só por que você é literalmente um anjo que está aqui? Nós somos amigos de longa data e nunca mandei em você como você nunca mandou em mim, e agora que está nervoso quer mandar? Pois saiba que não. Não vou te dar. Se eles me entregaram falando que eu saberia como usar, então a pedra ficará comigo, pelo menos o que ainda sobrou dela. E se você realmente quer realizar o seu desejo, estarei esperando por você quando você vier buscar... Anjo.”.

Enviei, meu coração, machucado com a ofensa e mais ainda com a situação que estava a minha volta.

Não, eu não queria brigar com ele, mas não podia entregar assim também. No nosso mundo, tudo tem um preço.

A resposta chegou.

“Que assim seja, FelipeLobo. Vou ir atrás de cada pedaço, esteja aonde estiver. Esteja com quem estiver. Não importa a função que ela tenha adquirida. E depois que eu tiver os pedaços que você espalhou, irei atrás você. Até um dia no futuro, FelipeLobo.”.

Não aguentei e comecei a chorar enquanto escrevia a última resposta.

“Estarei esperando, Semi-Anjo. E não, não vou chama-lo pelo nome por que não preciso disso. Não preciso intimidar. Apenas estarei esperando muito bem preparado para brigar ou enfrentar um antigo amigo um dia. Até um dia...”.

Enviei e desliguei o aparelho celular chorando, mesmo sabendo que nenhuma resposta viria ou mesmo duvidando se a minha chegaria a ele algum dia. Mas agora, estava tudo acabado. E quando olhei para frente, tive de levantar correndo para não perder o ponto de ônibus. 

Assim, a vida continuou... Por enquanto. 

"Cada Passo que damos... Cada escolha que damos... Nos guia para outras opções que também irem escolher... E cada uma delas terá uma surpresa... Seja boa ou ruim... A minha parte eu fiz... Abrindo cada porta que me foi dada... Quero apenas que você seja feliz... Só isso... No Final…".

Posted on 18:33 by Yuri Costa

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Capítulo 8





Após sair com tanta pressa do apartamento de Nicholas, percebi ter esquecido as chaves de meu escritório. As roupas também, mas não me fariam falta por enquanto. Resolvi voltar e ao meio do caminho, ainda no corredor pude ouvir a conversa de alguém. Não era minha intenção escutar o que eles falavam, mas ao perceber que se tratava da voz de Nicholas e de uma mulher, que até então não consegui reconhecer, decidi não atrapalhar os dois e ouvir o que falavam até o final.

− Brigou com a namorada Nick?

− Deu pra ouvir é? 



− Ah, vai, não fica assim. Ela não te merece Nick.

Houve uma pausa, ela só podia estar jogando charme para cima dele. Admira-me não reconhecer a voz dessa cretina oxigenada.

− Você merece alguém que cuide bem de você.

− Pode deixar que vou procurar alguém melhor.

A última frase soou como um passa fora bem dado na oferecida desconhecida, já em mim foi basicamente como uma facada. Ouvir que Nicholas iria procurar por alguém melhor foi doloroso o suficiente para que eu inflasse meu peito de orgulho e não deixasse uma gota de lágrima cair. Decidi voltar para casa assim mesmo e depois Alfred buscá-las-ia para mim. Tudo que eu precisava era sentir a grama e o cheiro das flores do meu jardim. Eu só queria me sentir em casa e ter a certeza que não devia ter saído nunca de lá. 

Dei uma boa olhada ao redor do prédio em que vivi por dois anos ao lado de Nicholas, talvez fosse à última vez que eu voltaria ali. Em seguida fitei a janela principal de seu apartamento por alguns minutos e voltando a si entrei em meu carro. Respirei fundo enquanto segurava o volante com força, logo o portão se abriu e eu pude me despedir. 

Depois de correr bastante na parte asfaltada, dirigi tranquilamente pela estrada de terra que levava até a mansão de papai. Por conseguinte demoraria mais um pouco para chegar, mas aproveitei para pensar um pouco em tudo que havia acabado de acontecer... Pensar serviu como uma leve distração, que logo foi interrompida pela barulheira ocasionada por um Volvo preto que tirou um fino de mim ao passar correndo. A poeira logo subiu. Esperei ela baixar para que pudesse enxergar a estrada com mais clareza. Eu já estava perto de casa, ainda bem, pois havia ficado nervosa com todo esse alvoroço.

Chegando a entrada da casa, pude notar que o carro que havia passado por mim residia dentro de minha mansão. Saí do carro e entreguei as chaves na mão de Natan, nosso motorista particular. Caminhei pelo jardim decidida a descobrir quem era o bonitão que me havia feito comer poeira agora pouco. 

Encontrei Alfred na entrada e expliquei o motivo de minha volta repentina, inclusive pedi que buscasse minhas roupas e chaves na casa de Nicholas mais tarde. Perguntei também de quem era o Volvo preto e ele não soube dizer, apenas disse que o apressadinho estava no escritório conversando com meu pai. Acelerei o passo e encostei o rosto bem próximo à porta da sala de papai. Primeiro, o cara falou por um bom tempo. Depois ouvi papai finalmente se manifestar.

− Oscar, você tem certeza que não tem chance alguma de descobrirem que é você?

− Não senhor, estamos agindo sem deixar rastro, de maneira que ninguém perceba qualquer ligação minha com a quadrilha que tem feito esses assaltos.

− Então significa que nosso plano de distração está sendo bem sucedido?

O homem não respondeu, mas ao passar pela porta, percebi ter meneado a cabeça positivamente como sinal de resposta. 

− ALEXIS!

Ouvi meu nome soar estridentemente vindo da sala de papai. Apesar de intrigada com o que ouvi e querer pensar a respeito, não deixei de atender seu chamado.

− Sim papai! – Respondi abrindo a porta de sua sala.

− Não sabia que estava de volta.

− Pois é, papai, tive alguns problemas. Mas depois nós conversamos, não quero atrapalhar a reunião do senhor. – Falei enquanto ia me retirando.

− Espere, quero que conheça alguém.

Respirei fundo e imaginei que fosse o dono do Volvo preto, que até agora se encontrava de costas. Era alto, devia ter mais ou menos 1,80. As madeixas negras e bagunçadas eram longas até a nuca. Parecia ter o corpo escultural e era cheiroso. Como era. Logo o bendito Oscar se virou e eu não pude esconder a excitação. 

A barba falhada roçou em meu rosto rapidamente ao me cumprimentar, seu cheiro impregnava em mim de maneira voraz. 

− Muito prazer, Oscar!

− O prazer e a honra são meus, querida.

Eu sentia que ele me conhecia ou apenas estava louca por aquele charme de 1,80.

− Oscar trabalha para mim. – Comunicou papai, mal sabia ele o que eu havia ouvido, mas me fiz de desentendida.

− Mesmo? Você também é engenheiro?

Oscar pigarreou ajeitando a gravata. Eu logo soltei um sorriso de canto ao perceber o desconforto de sua parte.

− Na verdade sou corretor.

− Ah, corretor? Sei. Bom, papai, agora tenho que ir. Mesmo!

− Tudo bem, depois almoçamos juntos. Você fica pro almoço, né Oscar?

Eu estava dando as costas quando ouvi essa maldita pergunta soar entre quatro paredes. Desejei que dissesse não, mas o apressadinho disse sim. Depois de sair do escritório de papai, eu basicamente me mantive trancada no quarto até a hora do almoço. Andei pensando sobre o que ouvi e fiquei intrigada. Que eu saiba papai não tinha envolvimento com essas coisas. Ou pelo menos eu passei a vida inteira achando que não. Talvez isso explique a sua ausência. E esses assaltos? Nós não precisamos tirar nada de ninguém, nós nunca precisamos. Há algo de muito errado acontecendo e eu preciso descobrir. É óbvio que sozinha não poderá ser, até porque eu nem sei por onde começar. Preciso de um investigador, urgente! E a minha primeira vítima será Oscar, eu não engoli essa história de Corretor e eu espero que ele tenha engolido meu ar de desentendida. 

Depois de muito pensar em como faria para conseguir ajuda de alguém, fui interrompida por Alfred.

− O almoço está servido. Seu pai lhe aguarda no jardim, minha flor!

− Ah, obrigada pelo trabalho Alfred. Já estou descendo, só vou colocar uma roupa mais light. – Na verdade eu estava querendo dizer provocante. Pode parecer arriscado, mas talvez se eu me envolver com Oscar eu consiga descobrir algo. 

Baguncei o cabelo e joguei boa parte dele para o lado direito. Troquei a calça por um short. Pus um óculos escuro preto e um batom vermelho cereja. No jardim, Oscar e papai conversavam animadamente. Urrei quando ao me aproximar percebi ser a respeito da mudança de Oscar para a cidade. Papai só faltava lhe chamar de filho. Desviei a atenção ao chegar à mesa.

− Espero não ter demorado muito.

Neste momento Oscar, que se manteve fitando o jardim boa parte da conversa, desviou seu olhar para minha direção. Levemente desconcertado, tentou esconder a fraqueza voltando-se para a cadeira ao lado de ambos. Ele se levantou e a puxou para que eu pudesse sentar. Agradeci com um sorriso doce que ainda sim não o encantou por muito tempo. Logo o almoço nos foi servido. Conversamos nada mais nada menos sobre qual decoração seria feita no apartamento de Oscar, que eu não sabia exatamente onde ficava. Oscar era muito reservado, ter a oportunidade de decorar o local em que residiria seria a melhor maneira de descobrir mais coisas a seu respeito. Terminamos o almoço e papai se retirou para uma ligação.

− Então, Oscar, não é mesmo?

− Sim, senhorita!

− Você já conhece a nossa casa?

− Já.

− Sério? Nossa, eu nunca o vi por aqui.

− Com certeza foi no período em que a senhorita estava fora daqui.

− Talvez.

− Por que a desconfiança?

− Desconfiança? Que isso! Quer mais um pouco de suco? – Inclinei-me juntamente com a jarra na direção de sua taça, quando por um descuido derrubei suco em sua roupa. – Ai, me desculpa. Eu seco pra você.

Levantei-me rapidamente indo em direção a Oscar e comecei a secar parte de sua blusa, e o cós de sua calça. O mesmo não sabia o que fazer. Estava impaciente, não sabia se cuidava para que meu pai não nos visse ou se admirava meus seios praticamente roçando em sua face.

− Alexis, o que aconteceu?

− Ah, veja só papai. Derrubei suco na roupa do Oscar, estava aqui dizendo que ele podia ir até o meu quarto se banhar para tirar o doce do corpo, que o senhor lhe emprestaria uma roupa.

− Com certeza, pode ir Oscar.

− Senhor, não precisa.

− Não seja modesto, claro que precisa. Está todo molhado! 

− Tudo bem!

Oscar saiu em direção à entrada da casa e foi acompanhado por Alfred até a minha suíte. Enquanto isso aproveitei para tentar arrancar algumas coisas de papai.

− Então pai, o senhor nunca me falou do Oscar. Ele parece ser seu braço direito... 

− Ele é... Mas negócios são negócios, Alexis.

− Entendo.

− Mas e você, por que a volta?

− Nicholas recebeu uma proposta de emprego, vai ficar fora por um tempo.

− Ah, que pena.

− Nós terminamos também.

− É uma pena mesmo, ele era um bom rapaz. Filha, eu tenho que ir ao escritório resolver algumas coisas. Cuide para que não falte nada ao Oscar.

− Pode deixar!

Despedi-me de papai, sabia que essa ida ao escritório duraria uma noite fora de casa. Segui até o interior da casa e resolvi ver se Oscar precisava de alguma coisa. O mesmo já se encontrava nu dentro do Box. O vidro embaçado me permitia ainda assim um bom visual do seu corpo musculoso. Eu estava encostada na porta do banheiro quando ele se deu conta de minha presença. Sua pele de longe enrijeceu. Estava excitado. Nossos olhares se encontraram, enquanto eu conduzia meu corpo em direção a porta de vidro do Box. Coloquei a toalha pendurada e quando estava para lhe dar as costas ouvi sua voz rouca chamar meu nome.

− Alexis... 

Meu corpo arrepiou só de pensar no que ele queria.

Posted on 14:46 by Yuri Costa

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