Eu não podia acreditar que depois de anos após a morte de minha mãe e da noite frustrante que vivenciei, finalmente havia conseguido ter uma boa noite de sono. Eu realmente estava disposta, uma energia de invejar. Poderia derrubar uma parede sozinha se quisesse. Talvez fosse o chá antes de adormecer, pensei.  


 Alfred caprichou ao me trazer esse tal de camomila. Acho que o beberei todas as noites daqui por diante.

Respirei fundo e empurrei a coberta saltitando para fora da cama. Caminhei até a porta da varanda e puxei as cortinas, fechei os olhos e senti a claridade beijar minha face. O dia parecia tão perfeito, pensei. Ao retornar a abrir os olhos percebi que apesar da claridade, o inverno estava apenas começando e o jardim de papai estava repleto de neve. Perceber a arte proporcionada pela geada da noite anterior me trouxe um aperto no peito e um maldito nó na garganta. Mamãe gostava do frio assim como eu e fazíamos tantos anjinhos na neve, ah, e os inúmeros bonecos que fizemos, com direito a cenoura no nariz e tudo, recordei.

Eu já estou cansada de ser enganada, não é possível que não exista uma explicação plausível para a morte de minha mãe. Nada fazia sentido, eu sei que não faz. Algo em mim diz isso e preciso esclarecer essa situação. Papai não me contaria Alfred talvez, mas não tudo. Quem sabe vovó pudesse me dizer alguma coisa. Afinal eu fui criada por ela e nunca entendi muito bem o porquê desse afastamento. Acho que vou fazer uma surpresa para vovó essa tarde,  pensei.

Depois de articular e programar meu sábado inteiro, arrumei a cama, sim porque mesmo com tantos empregados eu nunca gostei de me eximir de algo que é minha obrigação. Em seguida esvaziei o cesto de roupas sujas e levei para lavar. Passei por papai na cozinha, era o único dia em que o velho podia se encontrado em casa. Mordisquei um pedaço de sua torta de frango e segui em direção ao quarto, novamente.

Dei uma olhada no tempo outra vez e segui para o closet, selecionei um look bem simples e confortável. E caminhei para o banheiro. Enquanto banhava-me, pude ouvir a porta de meu quarto se abrir e estranhei afinal Alfred ou qualquer empregado que fosse costumava bater antes de entrar e eu não ouvi nada além do ranger da fechadura. Desliguei o chuveiro e gritei:

─ Quem está aí?

─ Sou eu filha, vi que mordiscou minha torta e trouxe-lhe um pedaço. Você não estava pensando em sair sem tomar café, estava?

Respirei aliviada ao ouvir que era papai.

─ Eu estava, mas já que fez essa gentileza. O que é estranho já que você não costuma me fazer agrados assim.

─ Não diga bobagens Alexis, eu posso não ser um pai presente, mas sempre fiz de tudo para você mesmo que por intermédio de Alfred;

─ Claro... – Sussurrei para mim mesma e em seguida liguei o chuveiro outra vez.

Passado alguns minutos eu estava pronta, papai ainda me aguardava com um saboroso café da manhã em cima da bandeja. E seus olhos azuis indagavam-me curiosamente.

─ Aonde você vai, posso saber?

─ Sim, pode. Vou visitar Dona Amélia!

─ Ah sim, mande-lhe lembranças em meu nome. Diga que marcarei um jantar em memória aos bons tempos que vivemos em Idaho.

─ Bons tempos que eu vivi.

─ Já vai começar Alexis?

─ Não se você parar de fingir que se importa comigo.

Por um momento percebi o semblante de papai mudar, eu não gostava de vê-lo assim por minha causa, mas eu não conseguia trata-lo de maneira diferente desde que me manteve longe de mamãe e de tudo por tantos anos. Em partes, mas estive longe.

─ Desculpe...

─ Papai, tudo bem. Deixe, vamos esquecer isso e começar do zero. Essa torta realmente está uma delícia, Dora arrasou!

─ Sim está... Filha, eu tenho que ir. Tenha um bom dia e não se esqueça de retornar para Eliza. Andei olhando seu celular e tem uma chamada perdida.

Ao perceber que papai havia mexido em meu celular, agradeci mentalmente por não ter nenhuma mensagem de Nicholas. Ah, desde o ocorrido ontem de manhã eu não havia parado para pensar exatamente em nada e nem no que houve entre nós. Chacoalhei a cabeça e franzi o cenho.

─ Papai! Isso não se faz, não mexa mais em minhas coisas.

─ Também te amo, filha!

Vi papai sumir pela porta entre aberta e tratei de deliciar-me rapidamente com o café que ele mesmo havia trazido. Sem delongas dirigi-me até o lado de fora da casa e liguei para Eliza enquanto entrava no carro. O telefone chamou por alguns minutos e eu logo desliguei para que pudesse pegar a estrada. Pensei em comprar algumas flores para vovó, mas ela sempre gostou de ganhar sementes ao invés disso. Levei em torno de duas horas para chegar a Idaho. A cidade havia sofrido algumas mudanças, mas o parquinho em que eu e vovó costumávamos nos divertir nas tardes de domingo permanecia intacto, talvez mais aceso e rodeado de crianças. Mas a essência era a mesma. Amélia, minha avó, morava bem no centro próximo a uma sorveteria. Passado alguns segundos meu telefone tocou. Era Eliza.

─ Pensei que tivesse morrido te liguei a manhã inteira e nada!

─ Nossa exagerada. Eu não tive uma das minhas melhores noites, por sorte dormi muito bem e pude esquecer os últimos acontecimentos. Mas o que foi?

─ Que acontecimentos¿ Eu queria saber se você não quer ver um filminho hoje.

─ Ai Eliza, quando chegar aí eu te conto. Agora vou desligar, vim fazer uma surpresa para vovó.

─ Ok, nos vemos mais tarde, mande beijos em meu nome!

─ Pode deixar! E prepara a pipoca doce de groselha que eu estou morrendo de saudade de comer essa sua invenção maluca.

Pude ouvir Eliza gargalhar do outro lado.

─ Ok!

Estacionei o carro em frente à sorveteria e caminhei em direção à casa de vovó. Apertei a campainha e pude ver seus olhos arregalados contrastando com as madeixas negras saírem detrás da porta. Era uma mistura de ternura, amor, saudade... Tudo. Eu poderia jurar que nossos olhos brilharam de felicidade ao ver uma à outra.

─ Alexis...

Foi apenas o que vovó conseguiu proferir e logo as lágrimas prevaleceram. Abraçamo-nos ali mesmo. Eu sentia que estava segura envolvida no calor de seus braços. E sentia-me como uma criança, como a criança que foi paparicada até a alma e que quando adolescente fi-la cortar um dobrado.

─ Eu senti tanto, tanto sua falta! – Vovó Amélia continuou a falar com a voz cansada. Ela já estava bem velhinha.

─ Eu também vovó e de seus biscoitos, e sorvetes caseiros. Falando em saudade, papai e Eliza mandaram lembranças. Agora vamos ao que interessa... Que cheiro gostoso é esse?

Vovó gargalhou limpando as lágrimas.

─ Você não muda, só pensa em comer. Que bom que ainda existe essa “menina” em você.

─ É claro que existe! Mas me conte, esse cheiro é de biscoito...

─ É sim, estou fazendo para as crianças que frequentam a praça. Agora, sábado é o dia universal do piquenique aqui em Idaho. Cada um leva uma coisa e eu levo os biscoitos caseiros.

─ Ótima ideia, vovó. A senhora fica aqui sozinha, tinha mesmo que arrumar algo para se distrair e hoje que estou aqui, quero ajudar-lhe e também quero saber umas coisas.

─ Que coisas¿

─ Logo perguntarei, agora vamos, temos que levar esses biscoitos maravilhosos.

Colocamos os biscoitos nas bandejas e caminhamos para fora da casa em direção a praça. Vovó não havia mudado, só estava um pouco mais baixinha. Mas o humor e a ternura eram os mesmos. As crianças pareciam todas suas netas, um amor que chega me apertava o coração. Ajudei a distribuir os biscoitos e depois me sentei em um dos balanços disponíveis. Era uma cena adorável demais para ser verdade. 

Por um segundo distrai-me recordando do dia anterior. Aqueles orbes azuis que eu não consegui me esquecer desde a primeira vez que nos vimos agora roubavam minhas noites de sono. Suas mãos exploravam cada milímetro de meu corpo de um jeito suave. Como quem dedilhava uma música, seus dedos passeavam pela minha cintura com cuidado. Ele parecia esculpir-me da maneira que lhe conviesse. Seus lábios quentes e avermelhados pressionavam meus seios sugando-os com fervor para dentro de sua boca. Ele estava me levando ao ápice da insanidade de maneira mansa. Ele estava cuidando para que eu não me desviasse do prazer quando desceu rapidamente em direção a minha parte íntima e antes de qualquer loucura fitou-me em busca de um consentimento. Mas eu já não respondia mais... Eu estava longe pensando em como aquilo não passava de um equívoco e que Nicholas não me ligaria no dia seguinte. Que aquilo era uma desculpa para que me esquecesse do que fui buscar, mas... Ele estava conseguindo me concentrar naqueles olhos. Suas sobrancelhas arqueadas desafiavam e ao mesmo tempo persuadiam. Eu estava louca, ou simplesmente perdidamente apaixonada.

Permaneci imersa em todas aquelas lembranças até que me dei conta do tempo em que fiquei distraída. Vovó fitava-me curiosa. 

─ O que foi isso?  Eu quase pude cronometrar esse seu devaneio.

─ Problemas vovó, problemas!

─ Sei... Isso está me cheirando amor.

─ Não pense besteira vovó, eu não estou amando.

─ Se ainda não está, logo estará. E não teime comigo!

─ Tudo bem, a senhora está certa. É mais vivida do que eu, sabe bem o que está falando. Não está mais aqui quem falou.

Vovó gargalhou e em seguida pigarreou indagando-me.

─ Então vó... Ultimamente eu tenho pensado tanto na morte de mamãe e ela sempre foi um mistério para mim. Algo me diz que mamãe não sofreu um infarto. E por que eu sempre morei com a senhora... Por que essa distância toda?

Vovó respirou fundo e recostou o ombro no ferro do balanço.

─ Querida, penso que já está na hora de saber e vou desobedecer às ordens de seus pais. Sua mãe não teve um infarto. Ela na verdade foi assass..

─ DONA AMÉLIA, VENHA TIRAR FOTO COM AS CRIANÇAS! 

Berrou uma mulher alta, negra e de cabelos encaracolados.

─ Ela foi? ...

─ Oh, espere um instante.

Vovó saiu em direção às crianças e me deixou sentada, morta de curiosidade e ao mesmo tempo rezando para que mamãe na verdade não tivesse sido assassinada. Ela era inocente e até onde sei, não havia razão para um assassinato. Eu não estava em condições de assimilar algo tão bombástico. Amélia acabou não me contando o restante do assunto, a tarde foi chegando e eu tinha que me encontrar com Eliza, mas prometi que voltaria para terminarmos a conversa. Abracei-a forte e parti com o peito apertado.

Não demorei muito para chegar ao apartamento de Eliza, visto que morava logo no centro de Truly. Cumprimentei Srº Pedro, pai de Eliza e caminhei em direção ao Hall do prédio. Como o combinado, lá estava ela na cozinha preparando minha pipoca. Na verdade era a dela, a de groselha já estava pronta, pois como era doce não tinha necessidade de estar quente e Eliza nunca foi muito fã de pipoca doce, apesar de fazê-la parecer dos deuses. 

Enquanto escolhia o filme e arrumava a sala, percebi sua demora.

─ ELIZA!Vai demorar muito? – Berrei caminhando em direção à cozinha

─ Já estou indo, só estava colocando o refrigerante. – disse Eliza.

─ Ah sim, −falei – sabe... Acho que realmente gostei de ter ficado com o Nicholas hoje.

─Ah amiga, pela sua cara, isso é certeza absoluta! 

─ Não sei o jeito dele... Parece-me tão misterioso.

─ E você nem gosta de um mistério não é mesmo? 

Pensei um pouco no que havia acabado de ouvir e estremeci por já deixar transparecer um sentimento tão recente.

─ Vamos, está pronta!

Voltamos para a sala e nos assentamos. Recapitulei pela enésima vez a manhã anterior e a pergunta que pairava no ar era a mesma. “Será que Nicholas estava realmente gostando de mim ou tudo não fazia parte de um jogo e ele seria um aproveitador¿” Balancei a cabeça e com o coração apertado fixei os olhos na televisão.

Passado alguns minutos, meu telefone toca. E para ser sincera, eu não estava a fim de atendê-lo, mas a pessoa insistiu. Quando me dei conta já havia desligado e ao encarar o visor de soslaio percebi ser Nicholas. Minhas mãos começaram a suar e eu podia sentir meu estômago descer e subir como numa montanha russa. Eu não queria retornar e parecer desesperada, mas e se fosse algo sério¿ pensei. Olhei para Eliza com olhos de suplica e logo depois retornei a ligação.

─ Alô? 

─ Oi Nicholas, você me ligou?

─ Eu? 

─ É... – confirmei com a voz quase falhando

─ Liguei. 

Ao ouvi-lo suspirei aliviada.

─ Quer sair comigo? – concluiu Nicholas

─Co... – antes que pudesse dizer algo fui interrompida.

─ Ás 20hrs no cine do Thaylon.

Assim que desligamos o celular, eu simplesmente não conseguia dizer a Eliza o que havíamos conversado. Ainda estava em êxtase. Minhas mãos tremiam e eu sentia borboletas em meu estômago. Eliza faltava-me sacudir para que eu dissesse o que havia acontecido. Foi então que lhe contei tão rápido que fora quase impossível de compreender.

─ O NICHOLAS ME CHAMOU PRA SAIR!!!!!!!

─ O que¿ Eu não coloquei nada na sua pipoca, em. 

─ Não, o Nicholas me chamou pra sair. – Repeti a frase um pouco mais calma.

Foi então que nos demos conta do horário e corri para a cozinha saltitando para guardar a pipoca que praticamente não havia comido. Eliza foi comigo para minha casa e no caminho nós já pensávamos no que eu iria vestir. Eu ainda não conseguia acreditar que aquilo era verdade, eu estava tão deslumbrada que esqueci completamente todas as dúvidas que tinha a seu respeito e agora alimentava apenas uma certeza. A certeza de que Nicholas realmente estava sentindo o mesmo por mim.

Ainda restava uma hora para que eu pudesse me arrumar. Eliza fizera uns cachos em meu cabelo que logo depois separei as mechas com o dedo. Caminhei para o banheiro, fiz um coque e levei alguns minutos para tomar um banho relaxante e que espantasse todo o nervoso. Eu mais parecia uma garotinha saindo com seu primeiro namorado do que uma mulher com uma bagagem indecente de experiência de vida. Mas Nicholas me deixava assim: Imersa em certezas e incertezas. Imersa em desejo e medo. Em prazer e amor. 

Terminei o banho e caminhei para o quarto enrolada na toalha. A roupa já estava em cima da cama. Eliza soltou meu cabelo e fez um último retoque. Dirigi-me até o espelho e fiz uma maquiagem básica destacando apenas os olhos. Voltei-me para cama e troquei de roupa bem rápido. 15 minutos indicava meu relógio de pulso, eu precisava voar para o centro de Truly. 

Naquela noite Eliza dormiria lá em casa, então a deixei sob os cuidados de Alfred. Caminhei apressada em direção a porta e meu carro já estava estacionado ao fim da escada. 

─ Divirtam-se! – ordenaram Alfred e Eliza em uníssono. 

Olhei para trás e pisquei em suas direções.



Truly, por ser uma cidade miúda não costumava sofrer com engarrafamentos, sorte a minha que acabei chegando na hora marcada. Estacionei o carro e segui para a portaria procurando Nicholas com os olhos, e para minha surpresa constatei-me envolta pela cintura. A nuca arrepiada anunciava minha companhia e o coração descompassado me acusava: Era amor, eu estava perdida!