O céu estava nublado e as pessoas eram poucas. O inverno costumava ser mais povoado e lambuzado de cores quentes em Truly. Pergunto-me para onde o povo tem ido nos últimos dias, talvez para suas casas de veraneio. Talvez para debaixo das cobertas... Bem, o que sei é que eu não estou desfrutando da mesma maneira. Logo eu, alguém tão solicitada. Digamos que sou a realeza dessa cidadezinha pacata e humilde, onde os mais antigos se infiltram e esperam a morte chegar. Eu definitivamente não combino com esse lugar, é evidente. Sempre foi.

Continuei a caminhar até o boteco em que havia combinado com Elisa e não para minha surpresa, o encontrei aberto. Sr Plínio não tinha mais família desde que resolveu se afogar em meios às bebidas variadas. Apenas um dos filhos o acompanhava e para ser sincera, até hoje nunca entendi por que. O velho estava praticamente à beira da morte, talvez estivesse de olho no bar como herança, ou não. Cumprimentei-o de longe e sentei-me em uma das mesas próximas ao balcão.

A luminosidade do recinto oscilava entre claro e escuro por intervalos de tempo tão longos que cogitaria não fazer parte da decoração, mas sim do descaso perante as manutenções ― que pareciam não ocorrer há pelo menos um século ― O entre e sai de almas embriagadas pelas mágoas e frustrações, apesar de não contemplarem a arquitetura do ambiente, também jaziam como costume.  A embriaguez era costumeira e as músicas melodramáticas também, e digamos que vez ou outra se ouvia algo com a finalidade de sacudir o esqueleto, mas era raro, muito raro.

O que passava e se rastejava, era o tempo. E ninguém sequer dizia alguma coisa. Os olhos assentados lamuriavam-se por assistir a vida caminhar enxuta e articulada; enquanto o frio típico do meado de Julho deixava como rastro o compasso das cortinas e um arrepio incessante de minha pele. Recruzei as pernas mais uma vez com o intuito de aquecê-las entre si. Esfreguei as mãos e desabei para fora todo o ar que a pouco inspirava autonomia, e esperteza.

Há dias havia marcado com Elisa de tomarmos uma bebida qualquer com intuito de por os ocorridos em dia e parece que mais uma vez ela estava me agraciando com um bolo. De certo modo não estava surpresa. Elisabeth nunca fora pontual, mas o cuco já badalava além do combinado. Pousei uma de minhas mãos sobre a carteira e deixei escorregar duas notas. Meneei a cabeça duas vezes em direção ao balcão e logo me desvencilhei dos poucos segundos que restavam naquele ambiente inócuo, asqueroso e que indubitavelmente não me brindaria com uma bela noite deleitosa, ou simplesmente um galanteador a altura.
Atravessei a porteira principal e senti minhas coxas beijarem a mesma brisa gélida de ainda pouco. Baforei o ar e notei o choque térmico entre o calor expelido de meu corpo e o frio existente. Recostei-me no batente da janela que quase despencava e acendi um cigarro para esquentar as mãos. Elevei-o até a boca e permaneci com ele entre os lábios por um longo tempo, em seguida expeli o vapor para o alto. Por muito pouco, eu mais parecia uma prostituta. Mas as aparências enganam. Muito. Na verdade era uma arquiteta e designer mal amada pelo homem que gostaria, e idolatrada pelos que vez ou outra foi para a cama. Falta do que fazer. Apenas.

Suguei o cigarro pela última vez e esmaguei-o com o bico do sapato. Assoprei o vapor e fui surpreendida por uma tosse áspera, e atípica. Resmunguei comigo mesma.

─ Droga! Estou ficando velha.

Caminhei a passos largos em direção a meu carro e pude perceber um indivíduo tentando estacionar seu veículo ao lado do meu. Presumo que se tratava de um velho caquético ou um maluco qualquer. O máximo que dava para estacionar ali era uma moto. Apressei-me enfurecida antes que ele pudesse arranhar a lataria avermelhada de minha preciosidade. Dito e feito. A besta bateu a porta em meu retrovisor. Corri praticamente atropelando os próprios pés com o punho cerrado premeditando uma morte impiedosa, no mínimo.


─ Você está louco? Não viu que não dava para estacionar?

O homem não respondeu, simplesmente saiu do carro, bateu a porta e analisou meu retrovisor. Caminhou dois passos em minha direção e retirou de seu bolso uma carteira de couro acinzentada.

─ Quanto você quer?

─ Como assim quanto eu quero?


─ É eu arranhei seu retrovisor, quanto quer pela pintura nova?


─ Você sabe quem eu sou?

─ Não, mas deixe-me me apresent...


─ Como assim você não sabe quem eu sou? − Interrompi

Permaneceu em silêncio e com a carteira em mãos, aberta. Parece que ele realmente não me conhecia, a minha família praticamente fundou essa cidade. Eu vim de uma linhagem de Arquitetos e Engenheiros bastante conhecidos, ele já devia ter me visto em alguma revista.

─ Tudo bem, esqueça. Não precisa pagar nada, foi só um arranhãozinho.

─ Então ao menos me deixe pagar-lhe uma bebida – Indagou-me

E mesmo tendo acabado de sair do boteco de Sr Plínio, resolvi aceitar. Com toda essa confusão eu não tive tempo de me dar conta do belíssimo homem ao qual estava diante. Os lábios eram finos e convidativos, os olhos pareciam uma piscina maravilhosa para se deliciar. O cabelo bagunçado e a vestimenta alinhada contrastavam de maneira não muito agressiva. Eu estava padecendo praticamente de um colapso nervoso diante de tanta sensualidade... Digo, diante de tanta educação, simplicidade, cavalheirismo e todos os adjetivos que se referem a coisas boas do dicionário.

─ Você não me disse seu nome.

Depois de sair do transe, pigarreei e alinhei a saia de meu vestido, em seguida apertando-lhe a mão o cumprimentei.

─ Alexis... Alexis Burton – Respondi enquanto caminhava lentamente em direção ao boteco de Sr Plínio ─ Eu nunca te vi aqui, talvez por isso não o conheça...

─ É eu acabei de me mudar para aquele prédio – Apontou em direção a ele e concluiu − Não conheço nada aqui. Ainda estou me instalando e você? Mora aqui há muitos anos?

─ Sim! – Respondi rapidamente gargalhando em seguida.

─ O que foi? – Preocupou-se franzindo o cenho.


─ Nada... Você disse que está morando em qual prédio mesmo?

─ Naquele... Espera, por acaso você é a Designer que planejou meu apartamento? ─ Perguntou curioso.

─ Sim, sou eu mesma. Como você não conhece quem cuidou de seu apartamento? – Indaguei arqueando as sobrancelhas.

O homem cujo nome ainda não sabia, silenciou-se e pigarreando, mudou de assunto.

─ Já estamos caminhando há um tempo, esse restaurante é muito longe?


─ Restaurante? Não, restaurante só no centro da cidade. Não é muito longe, é que estamos andando bem devagar e na verdade é um boteco – Respondi enquanto elevava minhas mãos até a parte superior de meu antebraço e esfregava-os na tentativa frustrante de aquecer-me.

─ Então acho melhor deixarmos essa bebida para outro dia e podemos até ir a esse restaurante, o que acha?


─ Por mim tudo bem!

─ Então deixarei meu número com você e nos falamos no decorrer da semana. ─ Retirou seu celular do bolso e anotou meu número, em seguida tirou uma foto minha e colocou junto. Repeti o mesmo processo com ele e adiantei-me na despedida. Quando subitamente fui interrompida por sua voz macia e grave. − Imagino que esteja com frio. – Ergueu a mão direita em minha direção e entregou-me uma jaqueta de couro felpuda – por dentro – preta.


─ Obrigada, nos falamos durante a semana então! Até

─ Até




Vesti a jaqueta e aspirei ao aroma refrescante entranhado nos pelos da parte interna. Fechei os olhos por um minuto e deliciei-me com uma brisa fresca acariciando minha face. Permaneci estática no meio da rua por mais um tempo e logo caminhei de volta em direção ao meu carro. Tinha esquecido completamente do retrovisor estragado. Era só o que faltava!